Com declarações que parecem beirar entre o cansaço e a indignação, o superintendente da Delegacia de Alto Maracanã, em Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), José Braga, desabafa: "Tenho três filhos. Morro de medo". É incomum ouvir declarações do tipo da boca de delegados, mas a de Braga tem um motivo: a delegacia em que trabalha registrou a morte de mais um jovem envolvido com tráfico de drogas.
O garoto R.I.P., de 13 anos, foi fuzilado na noite de segunda-feira, no Bairro do Campo Alto. Levou vários tiros no peito e na cabeça. Primeiro desconfiou-se que o motivo teria sido rixa entre gangues de bairros diferentes, já que o jovem foi assassinado após dois rapazes, de bicicleta, perguntaram de onde o garoto era. Depois de responder que era de outro bairro, R. foi morto na frente do irmão, de 16 anos.
A investigação revelou, porém, que o crime foi motivado por causa de um acerto de contas. O garoto de 13 anos era usuário de drogas e tinha dívidas com traficantes da região. A Delegacia do Alto Maracanã não sabe quem foi o mandante do crime, mas já tem a informação de que o autor é também um adolescente, com idade próxima à da vítima.
"Não é de hoje que adolescentes se envolvem em crimes, tanto como vítimas, como autores. Então não surpreende", diz Dilson Morgerot, investigador e superintendente da Delegacia de Homicídios de Curitiba. A delegacia investiga a morte de outro adolescente, J. G., de 15 anos, morto na manhã de quarta-feira na Vila Pantanal, no Alto Boqueirão.
Segundo a polícia, ele estava na casa da namorada, de 20 anos. Informações revelam que se abrigava no local depois de ser ameaçado de morte no bairro Parolin. A fuga não surtiu efeito. Foi assassinado na cama da namorada com dois tiros no rosto. Ele estava sozinho na casa e ninguém testemunhou o crime. A namorada estava trabalhando. "Ainda é cedo para afirmar uma motivação, mas várias hipóteses já foram levantadas", explica o superintendente da Delegacia de Homicídios, que realiza uma investigação para chegar aos criminosos.
A cada dia, nota-se o envolvimento de cada vez mais adolescentes com o mundo do crime, dizem os policiais. "A prematuridade está presente em todos os setores da sociedade. Também no crime", diz Morgerot. José Braga, de Colombo, concorda. "As crianças estão precoces também para o crime, o uso de drogas, não só para mexer no computador", ironiza o superintendente da Delegacia de Alto Maracanã.

Antes do crime
Braga diz que sua delegacia registra uma média de oito homicídios por mês. Desses, a metade têm o envolvimento de jovens entre 15 e 18 anos. Na maioria das vezes, afirma o delegado, o perfil dos envolvidos é o mesmo: garotos de comunidades pobres, de famílias numerosas, abandonados pelos pais e com envolvimento com drogas, principalmente o crack. "Falta um olhar da sociedade para esses jovens. Todos ficam estarrecidos depois que o crime acontece, mas ninguém pensa no antes", alerta Braga.

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