Quem encontra Nágela Ali Kassem e seu filho, Tarik, pode ficar com saudades dos tempos de criança. É comum ver o menino de quatro anos em seu colo, em conversas animadas, trocando vez ou outra abraços e beijos. A cumplicidade entre a mãe, que é cadeirante, e o filho, é registrada nos olhares e nas palavras de carinho.
Aos 11 anos, Nágela teve poliomilite e ficou tetraplégica. Durante os primeiros cinco anos, ela era carregada no colo pelos familiares, que esperavam a recuperação dos movimentos. Os médicos não foram claros sobre sua condição e em meio a essa situação adversa, ela tomou a decisão de continuar sua vida normalmente. Iria estudar, construir um futuro e realizar o sonho de ser mãe.
Hoje, formada em Direito e funcionária há 16 anos da Justiça Federal, Nágela lembra que nos anos 1980, o deficiente ficava escondido dentro de casa. Rampas, ônibus equipados e outras facilidades que hoje são comuns não existiam na época. O estudo era mais difícil e as oportunidades de trabalho eram raras. ''As campanhas pelos direitos do deficiente foram aos poucos conscientizando a sociedade. Eu participei de todo esse processo. Nada me segurou. Mas, há muito para fazermos ainda'', afirma.
Aos 36 anos, Nágela começou a namorar. Outros conceitos tiveram de ser reavaliados. ''Houve muito julgamento. Quando as pessoas vêem um homem sem deficiência física com uma cadeirante pensam que é apenas por interesse ou dó. Não pensam que é amor, que existe respeito ou carinho.''
Quando a advogada ficou grávida, não faltou quem questionasse como ela cuidaria da criança. Quando a barriga começou a crescer, as pessoas olhavam espantadas. ''A gestação na cadeira de rodas teve os incômodos normais. Trabalhei até 20 dias antes do parto. As pessoas tendem a olhar como se fosse algo anormal, por causa dos mitos que há sobre a sexualidade do cadeirante. No meu caso, a paralisia é apenas no sistema motor. A gravidez era algo esperado''.
Quando seu filho nasceu, Nágela mais uma vez teve que se adaptar. Alguns cuidados, como trocar o bebê e dar banho, ela não pôde oferecer. ''Sempre tive alguém para me ajudar. Meu marido também foi muito presente. No momento em que não podia fazer coisas pelo Tarik, eu ficava triste, mas tentava compensar no carinho. Quando estava com em meu colo, procurava passar amor no tom de voz. Quando o amamentava, o que aconteceu até os sete meses, queria que ele sentisse que eu estava presente e o amava'', lembra.
Nágela contou com a ajuda de uma babá, o que em sua opinião não tirou seu espaço de mãe. ''Ela era uma extensão dos meus braços e pernas, mas a cabeça sempre foi minha. As decisões, sempre minhas. Eu escolhia as roupinhas que ele usaria, os alimentos para a papinha e outras rotinas''.
Quando Tarik começou a engatinhar outra preocupação surgiu para Nágela. Como ir ao seu socorro quando ele caísse no chão? Como segurá-lo antes que fosse para algum lugar perigoso? ''Além da ajuda da babá, eu desenvolvi a técnica de sempre chamá-lo para perto de mim. Aí ele começou a querer escalar a minha cadeira. À vezes, pequenas adaptações vencem os limites da gente''.
Quem encontra Nágela com Tarik, passeando em seu colo, entende que ''o que impede a pessoa de se locomover com suas próprias pernas não é a falta de movimentos, mas de atitudes. E na maternidade o único limite é a falta de amor''.

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