Matemática sem complicação
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terça-feira, 08 de novembro de 2016
Simoni Saris<br>Reportagem Local 

Temida e odiada por grande parte dos estudantes, a matemática deixa de ser um bicho de sete cabeças quando os professores conseguem aplicar os fundamentos da disciplina em atividades fora da sala de aula ou quando fazem os alunos entenderem que o aprendizado pode acontecer de maneira dinâmica e prazerosa. A cozinha, por exemplo, pode ser um bom local para se aprender matemática. No preparo dos alimentos, o cozinheiro tem de lidar com unidades de medida, proporção dos ingredientes e sem saber soma, divisão, multiplicação e subtração a receita tem grandes chances de desandar. Se a ideia é vender os quitutes que saem do forno e do fogão, então entram em cena os métodos de cálculo de custo e lucro.
Todo esse conteúdo faz parte do currículo do ensino fundamental 1 e é estudado pelos alunos em sala de aula. Mas quando a teoria vira prática, o aprendizado acontece bem mais facilmente. Foi assim que surgiu no Colégio Marista em Londrina a ideia da Feira da Matemática. Durante dois dias, os alunos do 2º ao 5º ano montam barracas e comercializam doces e salgados produzidos por eles mesmos. A preparação começa muito antes, com a pesquisa de preço dos ingredientes nos supermercados, a testagem das receitas e a organização do evento, com a distribuição de tarefas e funções. "Trabalhamos a pesquisa de preço. Cada um ficou responsável por pesquisar o preço de um ingrediente no supermercado e aí eles ficaram sabendo que os valores variam de um local para outro e quiseram saber por que variavam tanto", contou a professora do 4º ano Ione Santos Vasconcellos.

Nos testes das receitas, no ateliê culinário da escola, as crianças aprenderam a calcular as proporções dos alimentos, a medida de capacidade, de massa e também a calcular o custo e o lucro para decidir os valores de venda dos quitutes. Em casa, tiveram de repetir todo o processo para preparar o prato que seria comercializado no dia da feira. "Esse é o conteúdo trabalhado com elas em sala de aula neste trimestre", disse Deyse Murari, também professora do 4º ano. "Trabalhamos também português, com o gênero receita", destacou Ione.
Nos dias da feira, é hora de colher os resultados do planejamento e são visíveis nos rostos das crianças a satisfação e o orgulho de ver o resultado de todo um trabalho realizado em etapas. Para Letícia Rocha, aluna do 4º ano, preparar a torta salgada não foi nada difícil já que ela tem muita intimidade com as panelas. "Já fiz curso de culinária e na minha família todos adoram cozinhar", comentou. Durante a feira, as crianças se revezam em todas as funções e Letícia também gostou de ficar no balcão, atendendo os clientes. Mas difícil mesmo foi na hora de fazer a propaganda dos produtos. "É difícil convencer as pessoas a virem comprar. Você tem que ficar gritando e as minhas amigas já estão até roucas. Mas para atrair as pessoas eu falo o que tem, o preço e onde é a barraca e também digo que ela não vai se arrepender (de comprar)", ensinou.
"A gente consegue aprender a dar troco, ver se o pagamento está certo. É bem legal, mas a gente muda de lugar a cada hora e agora eu estou de balconista", disse Eduardo Nicolás Andrade Vieira Mejía.
Felipe de Menezes Alves, também aluno do 4º ano, dividia com o colega Victor Bauab o trabalho no caixa. "É muito legal, mas é meio difícil porque tem que pegar o dinheiro, colocar aqui (na caixa), dar a ficha e dar o troco. Nunca tinha feito isso, mas estou gostando", disse. "Nunca tinha cozinhado nada na vida e fiz sozinho a torta de presunto e queijo que eu trouxe hoje. Mas estou gostando mesmo é de ser vendedor", arrematou Victor.
Além do aprendizado de matemática e português, a Feira da Matemática também tem um cunho religioso porque desperta nas crianças a solidariedade. Toda a renda obtida com a venda dos produtos é doada a instituições de caridade escolhidas por cada turma.
O DESAFIO
No Colégio Sesi, a professora de matemática Camila Tozatti desenvolveu o projeto Matemática divertida: o desafio!, direcionado a alunos do 1º ao 5º ano do ensino fundamental. Dentro do projeto, a solução de problemas e as operações básicas de matemática são ensinadas por meio do xadrez e de outros jogos em equipe que estimulam o raciocínio. O projeto começou em abril e em apenas seis meses a evolução das crianças salta aos olhos não só dos professores, mas também dos pais. "A melhora do raciocínio é notável", afirma Camila, que utiliza diversos materiais para as atividades do projeto.
Além do tabuleiro de xadrez, a professora desenvolveu jogos com as cartas de ás a nove do baralho para fazer as crianças entenderem a soma e a multiplicação, criou dominó e jogo da memória que trabalham com adição e fração e atividades que unem desenhos e números. "São materiais que eles podem ter em casa e brincar com os pais. Já teve pais que vieram me pedir cópias de uma tabela que uso para ensinar multiplicação."
Nas aulas de Camila, as brincadeiras ainda acabam virando competição entre os alunos, com cronômetro para medir quem resolve os problemas no menor tempo e ranking de resultados. "No início, as partidas de xadrez são disputadas por duas duplas, o que os obriga a entrarem num acordo para mexer as peças, estimulando o trabalho em equipe. Eles também aprendem a lidar com saber ganhar e saber perder."
"A gente parte do princípio de que a criança aprende através do lúdico", disse a orientadora pedagógica da escola, Márcia Roberta Jorge. "Por meio dos jogos eles entendem o que é a tabuada e, por exemplo, eles entendem o processo da tabuada passa a ser gostoso e o raciocínio lógico é mais rápido para resolver problemas e desafios. Todos têm a visão de que matemática é difícil, mas tem formas diferentes de aprender e ensinar."


