MATAR OU NÃO MATAR? - Abate de pombas é ineficaz, dizem especialistas
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 17 de agosto de 2006
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Às vésperas da audiência pública onde será discutido o abate de pombas amargosas em Londrina, e sem ter aprofundado pesquisas sobre o assunto, o poder público ainda não parece seguro para responder à pergunta: ''Será esta a medida mais eficaz para solucionar o problema da superpopulação destas aves na cidade?''
Experiências semelhantes em vários lugares do mundo mostraram que não. É o que afirmam, com conhecimento de causa, dois especialistas consultados pela Folha. Um deles é o engenheiro agrônomo Hugo de Souza Dias, executor da fracassada destruição de mais de 20 milhões de ovos e filhotes de pomba amargosa no município de Tarumã, interior paulista, no início dos anos 90. O outro é o professor Ronald Ranvaud, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP), um dos maiores pesquisadores do assunto no mundo.
Ambos alertam que Londrina vai incutir no mesmo erro cometido em outras localidades, se não focar a origem do problema. ''Pode matar 50 mil pombas, a quantidade que quiser, que não vai refrescar nada. É a oferta de alimento que leva ao crescimento das populações'', explica Ranvaud.
No caso específico das amargosas espécie predominante na cidade e que já ultrapassa a soma de 200 mil indivíduos, segundo a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Sema) o professor da USP não está falando das pipocas ou pedaços de pão que os cidadãos atiram para as aves. Ele esclarece que, ao contrário das ''pombas de praça'', a Zenaida auriculata não costuma se aproximar das pessoas e alimenta-se de grãos e ervas daninhas, geralmente nas lavouras. É nelas que as amargosas passam o dia, usando a cidade apenas como ''dormitório''.
É preciso, portanto, deslocar a atenção para a área rural. O caso de Tarumã (SP), próximo à divisa com o Paraná, pode servir de exemplo para Londrina. Dias conta que a coleta de ovos e filhotes, licenciada pelo Ibama em dezembro de 1992, foi uma tentativa de acabar com o tormento de dezenas de agricultores que reclamavam de prejuízos na produção de grãos. ''Tínhamos notícia de outros ninhais na região, inclusive no Paraná, mas o de Tarumã era o maior. Chegamos a contar 16 milhões de indivíduos em postura, ou seja, machos e fêmeas colocando ovos e cuidando de ninhos'', recorda.
Durante um ano e meio, foram retiradas 250 toneladas de ovos e filhotes, aproximadamente 25 milhões de indivíduos. Bancada por cooperativas de agricultores associadas à ONG Centro de Desenvolvimento do Vale do Paranapanema (CDVale), a ação custou ''algumas centenas de milhares em dinheiro e muitos inimigos'', de acordo com o agrônomo. O plano fracassou em reduzir a população de amargosas, que continuaram tendo alimento disponível e se reproduziram rapidamente. ''Se o alicerce de sustentação permanece, a chance de retorno é muito grande.''
A solução encontrada, anos mais tarde, foi combater falhas nas práticas agrícolas. Os pesquisadores constataram que as pombas não atacavam diretamente as plantações; elas comiam grãos deixados na terra após as colheitas. ''Fizemos uma campanha regional para melhoria da qualidade das lavouras, evitando o desperdício de grãos e as ervas daninhas, e assim diminuindo o alimento das pombas'', aponta. O engenheiro acredita que o próprio desenvolvimento da agricultura no País, nos últimos anos, impôs novas exigências e acabou tendo um reflexo positivo sobre o problema das pombas.
Com a experiência de quem aprendeu com os erros, o agrônomo paulista manda uma sugestão às autoridades londrinenses e dos outros 65 municípios que já conseguiram autorização do Ibama para abater pombas: ''Tem que pesquisar bastante, arranjar gente competente e andar com calma antes de sair matando aves por aí''.
A audiência pública para informar a população a respeito do plano de abate das pombas em Londrina será realizada amanhã, das 8 às 13 horas, na Câmara Municipal. Deverão participar representantes da Sema, Ibama, Instituto Ambiental do Paraná (IAP), Promotoria de Meio Ambiente e universidades. O evento é aberto a toda a comunidade.


