Matadouro municipal não evita carne clandestina
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segunda-feira, 29 de setembro de 2008
Luciano Augusto<br>Equipe da Folha 
Londrina - Quem atesta a qualidade sanitária da carne que chega à mesa do brasileiro? No Brasil, todo abate de animal tem que ter sua qualidade sanitária aferida. Para ser comercializada, a carne tem que passar pelo Serviço de Inspeção Federal (SIF), do Paraná (SIP) ou Municipal (SIM). Teoricamente, a presença de um destes selos confere qualidade sanitária ao produto mas, na prática, é muito difícil o consumidor ter esta segurança. Sobretudo nas pequenas localidades podem ocorrer duas situações: o animal ser abatido em matadouro municipal; ou ser morto de forma clandestina.
A fiscalização não consegue se impor contra o mercado clandestino de carne. Esta ineficiência, além de interferir na arrecadação de impostos, coloca em risco a saúde dos brasileiros. No Paraná, a situação não é diferente. Em algumas pequenas cidades do Estado, estima-se que um em cada dois quilos de carne comercializados não é inspecionado.
Apresentados muitas vezes como a solução contra o risco da clandestinidade, os matadouros municipais nem sempre põem fim ao "abate no mato", principalmente por causa de pressões políticas que visam mascarar problemas ou permitir abate de qualquer animal, mesmo os doentes, com membros fraturados ou considerados velhos demais. Apesar disso, ainda há quem autorize a implantação desses matadouros municipais. Ribeirão do Pinhal, por exemplo, obteve verba através de emenda parlamentar para construção de um matadouro que tem até data marcada para início da construção: em novembro. Mas o ministro Reinhold Stephanes (Agricultura, Pecuária e Abastecimento), em entrevista à FOLHA no último sábado, disse que pretende acabar com os matadouros municipais (leia mais nesta página).
Um médico veterinário de um matadouro na região dos Campos Gerais estima que o abate ilegal em alguns municípios da região pode chegar a até 50%. Ele alerta que o consumo de carne não inspecionada é um problema de saúde pública porque muitas doenças podem ser transmitidas dos animais para as pessoas (as chamadas zoonoses). "Um matadouro público não dá lucro mas, quando funciona adequadamente, tem uma importância social enorme", reforça.
A reportagem constatou a interferência ao percorrer matadouros do interior, onde veterinários responsáveis falaram, mas preferiram não se identificar. Um exemplo ocorreu com uma profissional do Norte Pioneiro que conversou com a reportagem mas foi desautorizada pelo secretário municipal de Agricultura, que ainda chegou a exigir que o jornal enviasse cópia da reportagem antes da publicação. Ela garante que os profissionais sérios não cedem às pressões políticas e descartam animais com suspeitas de problemas.
O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) aposta no Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal que integra o Sistema Unificado de Atenção à Sanidade Agropecuária (Sisbi/Suasa), para padronizar os procedimentos sanitários de abate de animais nos municípios e estados. O problema é que, como a adesão é voluntária, apenas um município foi aceito após dois anos e meio do lançamento da idéia.
Para harmonizar os procedimentos e diminuir a distância sanitária entre os matadouros municipais, estaduais e federais, o Mapa lançou o Sisbi/Suasa em março de 2006. A assessora técnica do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Dipoa) do Mapa, Judi Nóbrega, explica que o processo é rigoroso porque avalia uma série de requisitos necessários para dar mais segurança a quem compra. "O objetivo é que se consiga fazer chegar a todos os brasileiros produtos com inspeção oficial", complementa.
Através da Secretaria de Estado de Agricultura e Abastecimento (Seab), o Paraná foi o segundo Estado brasileiro a protocolar pedido de adesão. O processo está em andamento. Em compensação, nenhum dos 399 municípios paranaenses demonstrou interesse pela iniciativa. Em todo o País, só Criciúma (SC) foi aceita até o momento. Entre os Estados, nenhum teve seu processo aprovado.


