Lucilia Okamura
De Londrina
O catador de papel Ademir Justino da Silva, 21 anos, foi linchado por dezenas de detentos da Prisão Provisória de Londrina, ontem de manhã. Ele chegou a ser socorrido, mas morreu a caminho do Hospital Universitário (HU). O catador estava detido desde anteontem à noite por ter confessado o assassinato e estupro de Greice Carolina da Silva Melo, de cinco anos.
A menina foi morta com várias facadas no Jardim Santa Fé (zona leste) e depois teria sido estuprada, conforme Ademir da Silva relatou à polícia. O corpo, dentro de um saco de pano, foi jogado em uma tubulação de esgoto naquele bairro.
Greice Melo havia desaparecido no dia 1º e seu corpo foi encontrado anteontem de manhã. Segundo depoimento prestado à polícia, Ademir da Silva disse que havia praticado o crime para se vingar da mãe da criança, Marineide Melo, porque ela o havia traído.
Ademir da Silva, conhecido por ‘‘Doido’’, foi preso por policiais do 2º distrito policial, onde deveria ficar recolhido aguardando julgamento. Mas os próprios detentos ficaram revoltados com o acusado e ameaçaram agredi-lo caso fosse colocado em uma das celas. Havia também boatos de que moradores iriam invadir o distrito para matar o catador de papel.
Por medida de segurança, Ademir da Silva foi transferido para a Prisão Provisória e colocado na cela oito, com outros detentos. Ele não teria sido molestado durante à noite, segundo o diretor da prisão, Carlos Nadalim. ‘‘Perguntamos para outros presos se havia problema em deixá-lo lá eles disseram que não’’, afirmou.
O linchamento aconteceu ontem, por volta das 8 horas, quando os presos estavam sendo levados para o pátio de sol. O agente penintenciário José Roberto Ferreira contou que estava abrindo as celas, como de costume, para que os presos se dirigissem ao pátio de sol. Foi quando ele e outro agente, Ademilson Garbelini, foram rendidos pelos detentos e colocados em uma cela. ‘‘Tiraram ele (Ademir da Silva) do xadrez e começaram a espancá-lo com socos, pontapés e chutes’’, relatou.
José Ferreira disse que o espancamento durou cerca de 30 minutos. ‘‘Com diálogo, conseguimos convencer os presos a parar de bater’’, explicou. Segundo ele, o catador de papel saiu da prisão desacordado, mas ainda estava respirando quando era levado para o Hospital Universitário.
O médico que estava de plantão no Pronto-Socorro cirúrgico do HU, José Antonio Gorla Junior, disse que o detento já chegou morto ao hospital. Segundo ele, Ademir da Silva tinha hematomas de grande volume pelo corpo, múltiplas lesões produzidas por impacto e várias manchas roxas. Não foram encontrados sinais de perfuração no corpo. A causa da morte é politraumatismo.
O agente penitenciário contou que durante o espancamento, os presos justificavam a violência dizendo que Ademir da Silva poderia ter estuprado e matado qualquer um da família deles. Ele não soube dizer quantos detentos participaram do linchamento, somente que foram dezenas.
Até o fechamento da edição, o corpo de Ademir da Silva não havia sido liberado pelo Instituto Médico-Legal. Um irmão dele entrou em contato com o IML mas não apareceu para resgatar o corpo. Em Santa Cecília do Pavão (50 km ao sul de Londrina), onde moram os familiares de Ademir, ninguém havia solicitado os serviços da funerária local. ‘‘Entreguei meu filho para a Justiça e a Justiça o matou. Agora que fiquem com o corpo’’, teria dito a mãe de Ademir a funcionários da funerária. Eles não souberam informar o nome da mãe, mas sabiam que ela trabalha como doméstica.Ademir Justino da Silva, que confessou ter matado e estuprado uma menina de 5 anos, foi morto por detentos da Prisão Provisória
Paulo WolfgangSEM ISOLAMENTOCarlos Nadalin, diretor da prisão: quase impossível evitar a agressãoArquivo FolhaAdemir Justino da Silva, o ‘‘Doido’’: espancado no corredor de celasPaulo WolfgangJosé Roberto Ferreira, da carceragem: diálogo para acabar com a agressão

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