Masami Yabi: na trilha do cinema japonês
Década de 40, interior de São Paulo. Com o final da Segunda Guerra, os imigrantes japoneses que vieram para o Brasil passaram a viver com mais tranquilidade. Até então, em muitos lugares, nem mesmo a língua nativa eles podiam falar em público. Eram constantemente censurados pelas autoridades brasileiras.
O motivo era óbvio: o Brasil, na guerra, lutava junto com os países aliados - União Soviética, Estados Unidos, Inglaterra e França. Do outro lado do front, estavam os países do Eixo, entre eles o Japão, além da Alemanha de Hitler e a Itália. Inimigos na guerra, os japoneses passaram a ser tratados como intrusos em terras estrangeiras.
Mas o fim dos combates - marcado de forma trágica com as bombas sobre Hiroshima e Nagasaki - apaziguou um pouco os ânimos no Brasil. Sorte para os imigrantes que apreciavam a arte cinematográfica ou queriam matar as saudades da terra natal: os velhos filmes japoneses, até então apresentados para a colônia brasileira em mostras itinerantes, puderam finalmente voltar a ser exibidos.
O fim da proibição, na segunda metade da década de 40, transformou-se numa oportunidade de negócio para um imigrante nascido em Kumamoto, sul do Japão, e que chegou ao Brasil no ano de 1918 - curiosamente, quase no fim de outra guerra mundial. Na época morador de Iacanga (SP) - onde anos mais tarde passou a ser realizado um famoso festival de música -, Masami Yabu decidiu deixar de lado o negócio que mantinha com cereais para comprar um velho projetor. Com ele, poderia exibir filmes para conterrâneos.
Mario CesarYabi, 94 anos, guarda uma coleção de filmes japoneses em VHS. Da época das projeções, sobrou apenas o velho hobby da pescaria, que não abre mão por nada: Tenho muita saudade. Era um tempo muito bom para a genteMasami Yabu está hoje com 94 anos de idade e mora em Londrina, junto da esposa Shizue Yabu, 84. Ele recorda que a idéia de viajar por diversas cidades, mostrando filmes japoneses para imigrantes, ocorreu em 1946, em Bauru, enquanto conversava com amigo que havia trabalhado com projeção no interior de São Paulo. Ele perdeu tudo que tinha porque na guerra não podia passar os filmes. Tava passando fome, lembra.
Aproveitando a experiência do amigo, Yabu o convidou para trabalhar com ele e ambos foram para o Rio de Janeiro, comprar o projetor. Eu tinha 100 contos e o projetor custava mais ou menos 25, 30 contos. Então deu para comprar, conta. O único problema: tanto na capital quanto no interior de São Paulo, já haviam outras pessoas trabalhando com projeção. Com o mercado inchado, ele resolveu apostar a sorte no Paraná.
Pensei que aqui fosse tudo mato mas que também tinha futuro. Vim e deu certo, diz. Na época, ele já estava casado e com filhos, inclusive um ainda de colo. Por isso chegou a Londrina sozinho - a família veio em seguida - e ficou morando na casa de um conhecido, próximo do lago Igapó.
O esquema de apresentação de filmes, na época, era o seguinte: o dono do projetor alugava o filme, por um período de um ou dois meses, de uma distribuidora da cidade de São Paulo; depois, percorria as cidades fazendo apresentações para pagar o aluguel. Isso geralmente ocorria em clubes que atendiam a própria comunidade nipônica - que, além do ingresso, pagava alimentação e estadia.
Mas o primeiro filme que Yabu alugou deu prejuízo: com um sócio que arrumou em Londrina, Yabu diz que pagou 50 contos por um drama, valor maior do que o próprio projetor. Cobrava quatro contos para cada apresentação. Era caro e ninguém queria ver. Não conseguia fazer apresentações, admite. Depois que abaixou o valor para dois contos, conseguiu fazer apresentações em Londrina, Apucarana, Rolândia, Bandeirantes e outras cidades do norte. Ainda assim não deu para pagar o que devia.
Já no segundo filme a situação começou a melhorar. Masami Yabu diz que alugou um drama tão bom quanto o outro e bem mais barato - cerca de 10 contos. O filme chegou até Maringá, além de outras cidades da região, e reunia dezenas de pessoas a cada apresentação. Era bom filme. Outro drama. Todo mundo ia ver, lembra.
E assim foi a vida do imigrante durante quase quatro décadas. Eram dramas, comédias, filmes de samurais e até do famoso Godzila, sempre apresentados com festa para os imigrantes. Além do Paraná, o projecionista chegou a fazer apresentações até em cidades de Santa Catarina, onde havia concentração de imigrantes. Também chegou a ter dois projetores e quatro empregados, que faziam apresentações simultâneas em cidades diferentes. Quando dava problema eu apresentava no outro dia. Mas nunca deixava de apresentar, garante.
Masami Yabu conta que parou com o serviço no começo da década de 80, quando a televisão já estava totalmente popularizada e cinemas já estavam abarrotados de produções americanas. Vendeu todo o equipamento. Somando dois filmes por mês durante 34 anos, ele estima que apresentou mais de 800 produções diferentes ao longo da carreira. E alimentou sonhos de muita gente.
Parei em 1981, com 77 anos. Já estava na hora de me aposentar, afirma. Hoje, depois de sete filhos (um já falecido), 12 netos e 15 bisnetos, Masami Yabu só assiste a filmes pela televisão e também no videocassete - ele mantém uma coleção de filmes japoneses em VHS. Da época das projeções, sobrou apenas o velho hobby da pescaria, que não abre mão por nada. E a saudade. Tenho muita saudade. Era um tempo muito bom para a gente, afirma.
PERFILMario CesarMáquina do tempoSeo Masami mata saudades do velho projetor, companheiro de mais de quatro décadas de trabalhoLúcio Horta





