Marlene Petrachin, 57 anos, moradora do Residencial do Café (zona leste) de Londrina é viúva e mãe de 27 filhos. Isto mesmo, 27 - quatro naturais e 23 por adoção. Motorista profissional, ela criou os filhos, transportando crianças para a escola.
Tudo começou em 1972 quando perdeu o marido em um acidente de carro. A kombi que ele dirigia caiu no Rio Couro de Boi (perto de Assaí). Marlene conta que ficou viúva com quatro filhos pequenos para criar; o maior de 11 anos e o mais novo com dois anos e meio.
Uma conversa com a filha, logo após a morte do marido, diz, a fez reagir. ‘‘Minha filha olhou para mim e perguntou se a gente ia ser mendigo e ia viver na rua. Disse que as crianças que viviam na rua estavam lá porque não tinham mais pai. Foi um choque’’, relembra. Marlene era costureira mas diz que a renda que conseguia era insuficiente para manter os quatro filhos - dois deles portadores de deficiência auditiva.
A idéia de trabalhar com o transporte escolar nasceu naturalmente. ‘‘Eu tinha de achar um serviço que eu pudesse realizar e me permitisse continuar cuidando dos meus filhos. Isto não era fácil’’, comenta. Diariamente ela levava os filhos para estudar no Instituto Londrinense para Surdos (Iles) e percebeu que havia demanda para o serviço. Com o apoio de amigos, ela financiou a compra de uma velha perua Rural Willys e começou a trabalhar.
Dorico da SilvaDireçãoMarlene Petrachin, conduzindo peruas por caminhos difíceis de Londrina conseguiu ser mãe de 27 criançasDois meses depois da morte do marido ela tirava a carteira de tratorista - documento de categoria profissional que permitia a ela dirigir qualquer tipo de veículo. Para exercer a profissão, ela fez um curso de mecânica da Wolksvagen, por correspondência. ‘‘Os carros que eu tive eram velhos e eu precisava garantir a sua manutenção para continuar trabalhando’’, diz.
‘‘Eu tinha muito medo de não conseguir dar conta de criar os meus quatro filhos. Mas as coisas foram acontecendo e a família cresceu’’, afirma. Seis meses depois da morte do marido, Marlene já tinha oito filhos. Conta que as crianças que vinham de outras cidades estudar no Iles e tinham como pagar sua permanência conseguiam logo um lugar para ficar. ‘‘Mas as pobres, não. Como eu podia me negar a ficar com eles ?, perguntava.
Em sua casa nunca havia menos que 13 crianças e jovens, além dos filhos naturais. A medida que eles cresciam e seguiam sua vida, outros chegavam. A casa era pequena e para dar espaço a todos. Então, Marlene recorria aos beliches. Ela dormia num colchão, embaixo da mesa de jantar. Era a primeira a acordar para dar tempo de dar banho em todas as crianças e prepará-las para a escola. Depois de encaminhar os seus, ela encarava o trabalho transportando outras crianças.
As crianças que ficaram menos tempo aos cuidados de Marlene ficaram em sua casa oito anos. ‘‘Elas chegavam sem nada para vestir, sem fazer nenhum som e sempre muito assustadas. Com dedicação e apoio, elas aprendiam logo a se comunicar. Todos que passaram por mim saíram daqui, independentes, com uma boa profissão e muitos só depois de casados’’, diz.
Circular em Londrina , naquela época não era fácil. Ela relembra que a maioria das ruas era de terra e qualquer chuva virava lamaçal. ‘‘A kombi derrapava com facilidade e era comum atolar no barreiro’’ diz. Embaixo do último banco da kombi, Marlene sempre carregava uma enxada de cabo curto para poder tirar o carro da lama. ‘‘Já perdi até sapato na lama, em pleno centro da Cidade. O trânsito de hoje é violento, mas dirigir naquela época era bem mais difícil’’, diz.
O primeiro veículo novo de Marlene foi adquirido em 95 e mereceu festa com foguetório. Hoje ela tem três vans, e transporta cerca de 70 crianças, além de prestar serviço para grupos de turistas, nos finais de semana.


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