Marlene, a costureira que virou motorista por acaso
A vida da motorista e presidente da Associação do Transporte Escolar de Londdrina, Marlene Petrachim, 65 anos, ironicamente, deu uma guinada depois de um acidente de trânsito. Foi a morte do marido, em um acidente de carro, que a levou a largar a máquina de costura e aprender a dirigir, para poder levar os filhos à escola. Com o auxílio da direção do Ilece e do Iles, onde três dos quatro filhos estudavam, ela comprou uma Rural Willys e passou a transportar outros alunos também, por alguns trocados. Isso foi em 1972. Um ano depois, o veículo foi trocado por uma kombi. E, 35 anos depois, Marlene é dona de cinco vans e um microônibus, e já transporta os filhos de seus antigos estudantes.
Hoje, ao comentar sobre as histórias que mais a marcaram, ela se lembra, com pesar, de duas tragédias, ambas ocorridas em 21 de abril de anos diferentes. ''Me lembro do menino todo feliz, me mostrando o tênis novo dele. Na vez seguinte em que fui buscá-lo soube que ele tinha morrido afogado em uma piscina. Outra história tão triste que não gosto nem de lembrar foi de dois irmãos que, quando eu cheguei para pegá-los, havia um alvoroço em frente à casa. O pai, a mãe, o menino e a menina estavam dentro de caixões, a família toda tinha morrido em um acidente na Serra da Graciosa'', relata.
Mas, felizmente, ela acumulou, junto com sua quilometragem, muito mais histórias boas que ruins. ''Um dia, no mercado, um homem me deu um abraço e me pegou no colo, disse que eu tinha levado ele da 1 à 5 série, que casou e agora é advogado. Teve também gente que transportei e, anos depois, quando eu achava que a pessoa nem se lembrava mais de mim, me mandou o convite da sua formatura'', conta.
O empenho, a dedicação e especialmente o carinho dessa senhora fizeram com que ela conquistasse a credibilidade dos clientes, fator essencial para que conseguisse manter sua empresa por tanto tempo. ''Não se pode fazer só por fazer. Eu gosto de dirigir e gosto de criança. Trabalho como se todo dia fosse o primeiro, tomando muito cuidado e procurando aprender sempre mais'', ensina, admitindo que hoje são os próprios clientes e ex-clientes que fazem a propaganda de seus serviços. ''Nas férias, tem pai que leva o filho pra me visitar em casa, de saudade.''
Marlene revela que, para poder cuidar bem das pessoas que transporta, fez até curso de mecânica por correspondência, além de mais de 40 horas de cursos como direção defensiva, primeiros socorros e transporte de cargas perigosas e de passageiros. E a máquina de costura ficou encostada a um canto, só utilizada para pregar um zíper de vez em quando. ''Eu bordava vestidos de noiva. Mas hoje, com essas mãos grossas e cheias de graxa, não dá mais'', assume, sem nenhum arrependimento. (A.I.)





