Deeeesintupidoooor de fogão a gáaaaaas. O dia todo o homem anuncia o seu produto, disputando o espaço com o vendedor ao lado: ''Olha o alho graúdo''.

Vizinhos de calçada, no centro de Londrina, os trabalhadores passam o dia tentando conquistar o cliente que caminha apressadamente e tenta se desvencilhar de tanto ruído. Logo adiante, a voz empostada no microfone se esforça para trazer ao interior da loja um possível comprador. Enquanto os outros travam a batalha no ''marketing do gogó'', os dois homens gastam o tempo trocando conversa num quiosque ao lado. Ao observar a viatura reluzente da Polícia Militar, o cidadão critica: ''Onde já se viu um carro desses movido a gasolina... O dinheiro é nosso mesmo né?''

Do outro lado da rua, o aposentado aprecia a cerveja gelada e alivia o calor do fim da tarde. O colega ouve os comentários sem devolver qualquer resposta. O efeito do álcool no organismo acrescenta emoção às palavras. Os olhos ganham brilho e o coração provoca o suspiro que parece aliviar o peso da alma.

Para o aposentado, observar os corpos que se movem em meio ao ruído dos vendedores é a ocupação de todo dia. Ele já se sente parte daquele cenário. ''Sou do tempo em que os políticos eram pessoas sérias'', comenta. ''Já viu funcionário público se preocupar em economizar energia, papel ou água do local onde trabalha?'', pergunta, emendando a resposta. ''As pessoas não estão nem aí porque os 'patrões' dão o exemplo da coisa errada.''

O homem mantém o monólogo e lança um último comentário antes de seguir para casa onde ainda encontra lembranças da esposa que o aguardava todos os dias para o jantar. ''As pessoas estão muito conformadas com tudo isso. Se quisessem, virariam o mundo do avesso.'' E sai arrastando a perna que, desde o último derrame, dificulta o andar. Na banca de jornais em frente, a frase pendurada na parede responde ao pensamento do aposentado. ''O conformismo é a sabedoria coletiva da ignorância individual.''

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