Marinheiros tem de beber água da chuva
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sexta-feira, 15 de janeiro de 1999
Dimitri do Valle 
Enviado a Paranaguá
Oito dos 17 tripulantes, a maioria argentinos, que ainda permanecem no navio de bandeira hondurenha El Moro aproveitam a água da chuva para não passar sede. Por causa de dívidas, a embarcação está retida no Porto de Paranaguá desde novembro, por ordem judicial. Moradores da Ilha do Amparo doam comida para os marinheiros, já que o estoque de alimentos devia acabar ainda ontem.
A bordo do El Moro, a atmofera é de esperança e revolta. O contramestre Carlos Miguel Larraburo, 52 anos, deposita suas esperanças no Consulado da Argentina, em Curitiba, que está tentando localizar, em Buenos Aires, os proprietários do navio. O desejo dos marinheiros é de que a companhia Sudatlântica de Navegación pague os cerca de US$ 60 mil de salários atrasados há seis meses.
O inconformismo só é maior quando os tripulantes lembram a saída do capitão do El Moro, Marcelo Farias, que regressou a Buenos Aires pouco antes do Natal. Com esse comportamento, teremos de rever todas as convenções internacionais marítimas, lamenta Carlos Larraburo, referindo-se a uma velha máxima dos homens do mar, segundo a qual o capitão é sempre o último a abandonar o navio.
Mauro FrassonA cozinheira Rosa mostra os compartimentos vazios de comidaQuem teve uma surpresa maior foi o marinheiro Jorge Luiz Damis, 24 anos. É a primeira vez que estou no Brasil e pensei que iria encontrar festa e alegria por aqui, diz. A embarcação, que está no mar há 38 anos, não tem mais condições de navegar. O processo de corrosão se espalha por todo o casco.
Se dependesse do estoque de comida do El Moro, os tripulantes já estariam praticamente passando fome. A comida acabou. A cozinheira Rosa E. Rosa faz o que pode com frutos do mar, peixes e os alimentos doados pelos moradores da Ilha do Amparo e por comerciantes. Eles são desumanos, protesta Rosa, quando fala do abandono a que os representantes da empresa Sudatlântico, a fretadora do navio e da Riverport S.A., a empresa armadora, relegaram a tripulação.
Situação singular vive o auxiliar de máquinas Vadin Chasovshicov, 30 anos. Ele não tem dinheiro para mandar para a mulher e a filha, que vivem em Moscou. Nascido na cidade de Omsk, na Sibéria, Vadin diz que conhece toda a costa brasileira, mas é a primeira vez que passa fome. Por falta de salários, ele prefere não telefonar a cobrar para a mulher, em Moscou. Ele relata as dificuldades encontradas no mar por meio de cartas, que, em média, demoram dez dias para chegar à Rússia.


