Maria vai à luta
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quarta-feira, 17 de março de 1999
Walter Ogama 
Maria fala e gesticula. Maria lembra do passado e se emociona. Maria é Maria Anideji de Mello, 45 anos, magra, cabelos longos e negros, baixa estatura, olhos cansados desenhados no rosto, que mostra muito mais sofrimento que as quatro décadas e meia de vida poderiam suportar. Maria é uma líder comunitária.
Casada com o pedreiro Severino Pereira de Mello, atualmente desempregado, Maria mora na casa de número 78 da Rua Doris, no Jardim Tupi, em Cambé. Agora, com endereço revelado, quem não sabe quem é Maria? Maria é mãe de Ricardo, 23 anos; Ana, 22 anos; Patrícia, 19 anos e Juliano, 12 anos.
Ricardo é o único da família que está empregado, com uma renda mensal de cerca de dois salários mínimos. Ana está no último ano do curso de Serviço Social, na Universidade Estadual de Londrina. Patrícia, a exemplo do pai, também perdeu o emprego, mas tem uma certeza: seguirá o exemplo de Ana e será uma assistente social, para depois cursar enfermagem. Juliano, com seus 12 anos, ainda não pode trabalhar.
Mario CesarOssos do ofícioMaria: As vezes, os filhos reclamam que eu saio muitoForça tamanha para carregar o ônus do desemprego na família e ainda ter disposição para comandar centenas de manifestantes numa manhã de domingo, como fez no último dia 14, usando a carroceria de um caminhão como palanque, só poderia sair de uma Maria. Como a Maria Anideji de Mello, que quando se identifica faz questão de avisar que o Anideji é com j e o Mello tem dois eles.
Pois Maria, é bom que se insista nesse nome, é presidente da Associação Cambeense de Defesa dos Direitos à Saúde, uma entidade que nasceu para lutar pela reativação do Hospital Londrina. E não foi por alguma casualidade que Maria adotou essa causa. Histórias guardadas na memória e nos recortes de jornais e documentos de Maria mostram que qualquer luta que ela assume tem pelo menos uma razão de ser.
Ontem mesmo, enquanto boa parte das mulheres brasileiras se preocupavam com o jantar, Maria caminhava rumo à 17ª Regional de Saúde, em Londrina, liderando uma comissão para negociar uma audiência em Curitiba com o governador Jaime Lerner. A pauta desse encontro: reativação do Hospital Londrina.
Sobre essa luta, Maria explica:
- Em 97, a minha filha estava com uma crise forte de pneumonia. Chegamos na Santa Casa de Cambé e até 16 horas não tínhamos sido atendidas. Consegui entrar dentro do hospital no horário de visitas e fui pedir socorro aos médicos, que eles descessem e dessem atendimento não só a minha filha, também para as demais pessoas que estavam debaixo de um sol forte. Desde aquele dia, decidi que iria lutar pelas causas da saúde.
Antes dessa causa, muitos anos atrás, Maria já era destaque entre colegas de escola, vizinhas e conhecidas. Na década de 80, ela fundou a Associação de Moradores Margarida Alves, na Vila Esperança do Norte, em Alvorada do Sul. Já em Cambé, Maria foi presidente da Associação de Moradores do Jardim Tupi, no biênio 91/92. Foi Maria, aliás, que fez uma eleição no bairro para dar um nome expressivo para a entidade: Chico Mendes ou Padre Josimos Tavares?
Os moradores escolheram o padre, de quem ela tem um quadro pendurado na parede da sala, ao lado do altar com a imagem de Nossa Senhora de Fátima. Um detalhe: Margarida Mendes, que deu nome à associação da Vila Esperança do Norte, em Alvorada do Sul, foi uma líder comunitária que morreu assassinada na frente dos filhos, segundo Maria. Padre Josimos Tavares, que hoje denomina a associação do Jardim Tupi, em Cambé, é considerado pela Comissão Pastoral da Terra um mártir da luta pela terra. Maria não sabe de que região do Brasil eles eram, mas conhece a história do dois líderes: ambos morreram assassinados.
O esforço de Maria para superar problemas financeiros domésticos e ser porta-estandarte de lutas comunitárias, segundo ela, tem o apoio do marido e dos filhos.
- Às vezes os filhos reclamam que eu saio muito.
Mas a filha Patrícia logo justifica:
- A gente reclama da falta de companhia dela. Mas normalmente vamos com ela participar das reuniões e dos protestos.
E quem poderia segurar Maria em casa, compenetrada num tricô, por exemplo? Ninguém. Maria começou a ser líder ainda menina, com sete ou oito anos de idade.
- Na escola as professoras diziam que eu era uma líder e eu nem sabia o que significava ser líder.
Também na infância Maria sentiu a necessidade de justiça. Ela lembra que, certa vez, errou a tarefa de casa e a professora ameaçou colocá-la de joelhos, na frente da sala de aula. Maria escapuliu pela porta e foi para a casa de uma tia, perto da escola. Esperou o sinal do fim de aula ser tocado e só então foi para casa, onde contou para os pais que tinha escapulido da sala de aula porque não achava o castigo justo.
Só com cerca de 15 anos, revela Maria, a noção do que é ser líder ficou mais clara para ela, que cursou o magistério e chegou a lecionar por três anos. Agora, Maria é tão líder que, além da entidade que luta pela reativação do Hospital Londrina, ainda é coordenadora no bairro da Pastoral dos Migrantes.
Mas, presidente de associação de bairro, ela jura que nunca mais:
- É um cargo que sofre muita manipulação por parte do poder público.
Católica, mas nem sempre uma exemplar praticante, conforme revela, Maria guarda algumas riquezas: uma carta assinada pelo bispo auxiliar de Londrina, dom Vicente Costa, e uma de dom Albano Cavallin. O arcebispo escreve:
- Peço que me ajude com suas orações para cumprir a minha missão de Bom Pastor.
Maria também se emociona com uma carta enviada por alguém que ela nem imagina quem seja:
- Louvo ao Senhor a cada segundo de sua vida; nos momentos de alegria e principalmente nas dificuldades, pois ele nunca lhe abandonará, mesmo que você queira! De quem não lhe conhece, mas escreve do fundo do coração. Amália.
PERFIL
Nome: Maria Anideji de Mello
Idade: 45 anos
Qualidade: líder comunitária
Causa: igualdade e justiça social


