Marcos NegriniDona de uma voz grave, ela já chorou em negociação e se diz apaixonada pela reforma agrária Superintendente do Incra no Paraná há um ano, Maria de Oliveira (nome completo), 45 anos, vive uma rotina que envolve vistorias de propriedades rurais e muita, mas muita negociação com as lideranças dos trabalhadores rurais sem-terra e ruralistas. A agenda dela é lotada de compromissos e o telefone celular não para de tocar. Autoridades como o presidente do Incra, assessores do governador, deputados, ruralistas e líderes sem-terra tentam a todo momento um contato com ela para discutir questões agrárias.
Dona de um tom de voz bastante grave, Maria de Oliveira se destaca nas reuniões de que participa. Ela já declarou que é apaixonada pela reforma agrária. Por causa de seu desempenho à frente do Incra no Paraná, quase foi afastada do cargo, por conta de um pedido de exoneração feito pela bancada ruralista da Câmara de Deputados.
Até agora, de nada adiantou a pressão dos ruralistas. Valeu mesmo foi a determinação desta funcionária de carreira do Incra há 21 anos. No quadro do órgão, ela é ‘‘técnica de cadastro’’.
Ela nunca se casou. Solteira, mãe de quatro filhos com 5, 6, 11 e 12 anos, um deles adotivo, Maria de Oliveira evita falar sobre as pressões por sua demissão. Somente alega que ficou no cargo de superintendente devido a sua competência e poder de negociação.
‘‘Sou uma guerreira e vou até o fim das negociações que acredito que estão corretas e que devem ser feitas’’, admite. Ela nega qualquer apoio político e diz que nunca se filiou a nehum partido.
Maria de Oliveira assumiu o cargo de superintendente do Incra no Paraná em junho do ano passado. Ela foi indicada pelos próprios funcionários do órgão, que estavam insatisfeitos com a gestão do então superintendente, Cyllas César Peixoto Filho.

Marcos NegriniAbrir porteirasMaria de Oliveira, em fazenda no Noroeste; funcionária de carreira do Incra, hoje ela coordena o processo de vistorias e desapropriações de terraA nomeação dela foi uma exceção à regra das indicações políticas, muito comuns nos órgãos públicos. Ela ocupava o cargo de chefe de cadastro do Incra no Paraná. Junto com colegas de trabalho, Maria de Oliveira participou de uma reunião com o ministro Extraordinário da Política Fundiária, Raul Jungmann, para indicar um novo superintendente. De uma lista tríplice, o ministro escolheu Maria de Oliveira.
Entre uma viagem e outra que faz pelos municípios do Paraná, Maria de Oliveira costuma receber muitas críticas. De um lado, os ruralistas a acusam de conivência com os movimentos sociais que ocupam as propriedades. De outro, ficam os líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-terra (MST), que a acusam de fazer promessas de desapropriações que nunca são cumpridas.
Há pouco mais de um mês, durante uma reunião em Querência do Norte (113 quilômetros de Paranavaí), Maria de Oliveira usou de seu vozeirão para se defender das críticas de um sem-terra. Quase chorou. No final do discurso, os quase 300 trabalhadores sem-terra presentes na reunião ficaram solidários. Ela acabou sendo aplaudida.
Atualmente, Maria de Oliveira coordena o programa de recadastramento das propriedades rurais, na região de Paranavaí. Outro assunto que toma seu tempo é o processo de negociação com trabalhadores sem-terra na fazenda Pinhal Ralo (ex-Giacomet Marodin), no município de Rio Bonito do Iguaçu (125 quilômetros a oeste de Guarapuava), que deverá ser o maior assentamento do País.
Na última quarta-feira, Maria de Oliveira concedeu entrevista à Folha, no município de Santa Cruz do Monte Castelo (103 km a oeste de Paranavaí).

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