Não havia hora, dia ou ocasião. Assim que Maria via alguém ela pedia alguns trocados. A pele negra como asfalto, as mãos grossas como o chão, sandália gasta como as faixas e a face enrugada como o acostamento eram o reflexo de Maria no pavimento das avenidas da cidade. Ela, mais do que ninguém, um Narciso às avessas enxergava, disforme, seu rosto na rodovia. Ela via a cada vez que debruçava na calçada sua própria face. Quando tocava as mãos no asfalto e sentia o calor de cansaço, assim, como o seu. Não tinha dúvidas. Era ela. A mulher se convencia, ainda mais, quando pedia a alguém para vê-la em seu reflexo no asfalto. As pessoas não viam o seu reflexo, assim como, não a viam nas esquinas.
Aquele pavimento coberto por automóveis lhe parecia mais um rio caudaloso que arrasta consigo barcas sobre rodas. Ela pedia. Dizia em tom solene que morava em uma cidade vizinha, ninguém sabe como, foi roubada e só ficou com o dinheiro para assegurar a merenda das crianças. Queria apenas o dinheiro da passagem. Mas o que intrigava, é que, dia após dia, ela continuava ali e invariavelmente precisava do dinheiro para adquirir a passagem. Em sua romaria ela variava as cidades, ora morava em Japira, ora em Pinhalão, às vezes até no interior paulista. Não importa. A viagem que nunca começou não precisava ter destino fixo. Ela jamais iria a lugar algum. Talvez só deixasse as esquinas quando se fundisse como Narciso ao seu rio.
No dia em que um atropelamento, haja vista que não se importava com a força do tráfego ou das águas do pavimento e sempre nadava entre os carros, ou uma agressão, tão comum às margens do seu rio rodovia, pusesse fim àquela existência e unisse o seu corpo ao asfalto. O sangue espesso, certamente, se depositaria vagarosamente no leito do asfalto, de maneira que o asfalto ficasse vermelho. Ela nunca deixou o asfalto, mas certamente sonhava com a viagem para algum lugar. O subterfúgio desesperado que colhia esmolas dos desatentos, na verdade era um artifício para custear sua representação. Ela sabia, mas não se importava. O importante era viajar para algum lugar em que a cor da pele, a origem pobre e a falta de educação não significassem um lugar à margem do pavimento. Um local em que não precisasse carregar um saco com todos os seus pertences às costas. Em que não fosse preciso amarrar um pano à cabeça para suportar o sol. Um local em que não fosse confundida com o asfalto e, acabasse sendo pisada, dia após dia. Finalmente, um local em que não precisasse pedir trocados em semáforos.

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