Maria Cecília morreu precoce
Londrina - Cadeira na calçada, comendo uma mexerica, a doméstica aposentada Valdeci Fernandes reage com reprovação ao saber que Luiz de Sá, o nome do conjunto onde ela mora há 34 anos, foi um importante engenheiro de Ponta Grossa (Campos Gerais). "É errado. Para dar nome a pessoa tem que ser daqui." Ela diz ter boas lembranças do tempo em que chegou ao bairro. "Era tudo novidade, o sonho da casa própria sendo realizado. Não tinha o Maria Cecília, o Violim, ali pra cima era só cafezal", recorda. E mesmo depois de ter tido a casa assaltada, há quatro anos, Valdeci nem pensa em sair dali. "Meus vizinhos são bons, todo mundo se conhece. E depois que abriu o Cras (Centro de Referência em Assistência Social) aqui na frente, ficou mais seguro, a polícia passa na rua com mais frequência", comenta. O que a preocupa é um terreno vazio na esquina de cima, onde, diz ela, "a pivetada se junta à noite pra fazer não sei o quê." O Luiz de Sá foi inaugurado com mil moradias e cerca de três mil habitantes.
Próximo dali, o aposentado João Ferreira de Souza, de 72 anos, o porteiro Odias Ladislau, 58, e o segurança Melquíades Moreira, 71, são mais que vizinhos de casa. A amizade entre eles nasceu junto com o João Paz. Os três se orgulham de serem alguns dos primeiros moradores do conjunto, entregue a 2,4 mil proprietários oficialmente em 1980. "Nós chegamos aqui em 79. A gente tinha que pegar água no vale. Ainda estavam fazendo a galeria pluvial e a rede de esgoto", conta seu João, o mais gaiato do trio.
Quando a FOLHA os abordou, os três estavam sentados lado a lado na calçada, em frente à casa do Melquíades. Dizem que sempre foi assim. Odias não vê problema no fato do engenheiro que batiza o conjunto não ter tido nenhuma relação com a cidade. Mas reivindica algumas melhorias na área. "Podia aproveitar o fundo de vale pra fazer uma área de lazer. Fizeram no Milton Gavetti, mas aqui não saiu do papel."
De resto, os três amigos, os três pioneiros do João Paz, gostam muito dali. "É um lugar santo, aqui ninguém mexe com nós. Não tem briga, não tem nada, os vizinhos se entendem, um cuida da casa do outro", conta seo João.
No Aquiles Stenghel, a auxiliar de administração pública Tereza Gonçalves Dias é indiferente à origem do nome do bairro, homenagem a um ferroviário. "Não sabia, não", confessa. Mas ela tem autoridade para falar do conjunto que viu nascer, inicialmente com apenas mil casas. A dela está no mesmo lugar, na Rua Ruth Santos Silva. "Aqui não tinha mercado, padaria, nada, só casa. A gente corria atrás do vendedor de pão para pegar os pães para as crianças", recorda. Ônibus, só na Avenida Saul Elkind, e olha lá. "A gente pegava ônibus no barro. Se chovia, era lama; quando fazia sol, era poeira." E hoje? "Ah, mudou bastante. A gente tem tudo aqui, nem precisa ir no centro. Quando vejo como está, nem dá pra acreditar."
Colado ali está o Maria Cecília, da menina que morreu de câncer na adolescência e era filha de um ex-presidente do BNH. O porquê do nome do bairro não ter nada a ver com a região é uma pergunta que a cabeleireira Maria Lúcia Noda ainda não tinha se feito. "Nunca pensei sobre isso!", arregala os olhos levemente puxados. O que ela sabe é que quando se mudou para lá, há mais de 30 anos, as residências, mais de 1,9 mil, eram todas iguais. "Olha, o que mudou pra melhor é que houve algumas benfeitorias, como a pracinha, escolas. O ruim é que tem muita molecada vendendo droga a qualquer horário."(D.P.)





