'Marco' de quem ficou entre os melhores do País
Contagiante a alegria do libanês Salim Sahão ao saber do nascimento do seu primeiro neto, ''tão esperado; só que veio mulher...'' Avô e neta, porém, seriam enlaçados por uma afinidade imensurável, sabe-se pelo livro ''Salim Sahão, meu avô'', escrito por ela. É, também, a história do hotel.
Pretendendo louvar a terra da promissão, o imigrante afortunado iniciou a hotelaria sofisticada em Londrina, então uma cidade de apenas 20 anos em velocidade urbana inigualável e, por isso mesmo, ainda carente de infraestrutura e serviços essenciais.
Que desviasse o empreendimento para São Paulo, até pela certeza de maior lucro, aconselharam-no amigos e banqueiros na capital paulista. ''Nada disso'', reagiu. ''Eu sei que pode ganhar mais dinheiro em São Paulo, mas eu vai construir em Londrina, porque foi lá que eu ganhei muito dinero. E eu vai fazer uma homenagem à cidade, deixando meu marco lá.''
Alertado pelo prefeito Hugo Cabral sobre a insuficiência de energia elétrica e a inexistência de rede de esgoto, Salim não se abalou: ''Deixa por minha conta''. Compraria geradores a diesel fabricados na Alemanha, para iluminar o edifício e movimentar os elevadores, e caminhão-tanque para esvaziar as fossas.
Ostentando no acabamento mármore de Carrara, vidros e cristais importados da Europa, o São Jorge Hotel era ''digno de se emparelhar, sem nenhum desdouro, aos melhores do gênero em São Paulo e no Rio de Janeiro'', sentenciou O Diário de S. Paulo. Propriedade da Indústria e Comércio Sahão S.A., o edifício de 11,5 mil metros quadrados fora construído a partir de 1950, reservados 3,5 mil metros quadrados ao São Jorge Hotel, com 82 apartamentos e 16 suítes, outros recintos, bar e um restaurante panorâmico no topo.
Para muita gente, era ''a loucura do Salim Sahão''. Mas Londrina se transformara ''no maior centro de riqueza e prosperidade do Brasil em todos os tempos'', segundo David Nasser em O Cruzeiro.
Projeto de Justiniano Cavaglieri e obra da Construtora Zancaner, o edifício situa-se numa área de 1.350 metros quadrados comprada por 1 milhão e 44 mil cruzeiros em 1949, de mister Arthur Thomas, gerente-geral da Companhia de Terras Norte do Paraná. Ali, existira a residência de Thomas, presumivelmente a primeira casa de alvenaria da cidade, construída entre 1933 e 1934 por Angelo Ferraris. Conforme depoimento de Michel Sahão, filho mais velho de Salim, o edifício custou cerca de 25 milhões de cruzeiros (moeda da época), ''tudo dinheiro do café''.
Sônia Sahão relacionou dois motivos ao nome do hotel: São Jorge é o padroeiro dos árabes; e em Beirute, ''terra ancestral dos Sahão'', existia o Hotel São Jorge.
Salim Sahão morreu em 9 de outubro de 1977, aos 77 anos. Chegara ao Brasil em janeiro de 1921, aos 21 anos de idade; no noroeste paulista, onde já moravam parentes no triângulo Ibitinga-Cambaratiba-Borborema, casar-se-ia com a prima Alice.
Salim passou de um ''boteco'' em Ibitinga ao comércio de algodão, café e cereais, ligando-se a exportadores. Torna-se fazendeiro, resiste à crise gerada pelo quebra da Bolsa de Nova York em 1929 e estende a atividade ao Norte Novo do Paraná, a partir de Londrina, em 1935. Fazendas, máquinas de algodão e de café, armazéns e até um hotel em Paranavaí, ''do Carabina'' (apelido do gerente), deram origem a Sahão & Cia., empresa familiar sucedida por Comércio e Indústria Sahão S.A. (W.S.)





