Incansável no propósito de preservar imagens da transformação urbana, o arquiteto Humberto Yamaki reproduziu o Álbum Londrina 1941 e acrescentou um inventário, demonstrando que restavam, em 2008, apenas sete das 73 construções relacionadas na publicação. E mais uma desapareceu, com a recente demolição do "Palacete David Dequêch", na Avenida Duque de Caxias quase esquina com a Avenida Celso Garcia Cid. Permanece na Duque, porém, um dos prédios mais antigos e não catalogados no álbum: aquele construído por João Schiavinatto na esquina com a Rua Benjamin Constant, ostentando a visível informação em alto relevo: 1-10-1937. Contemporâneo do "palacete" que se foi.
"A primeira casa de luxo construída no ano de 1937, de propriedade do pioneiro sr. David Dequêch", anotou o fotógrafo José Juliani. Ninguém mais do que o herdeiro, Nelson Dequêch, gostaria que permanecesse, se tivesse sido possível a restauração. "Eu nasci nessa casa", menciona uma das muitas razões sentimentais. A construção, porém, já não permitia reformas e presumindo o risco de desabamento, decidiu não mais alugá-la, conforme expôs. "Era o que sobrou."
Vinha sendo ocupada por um bar, cujo dono e alguns fregueses costumavam aguçar a imaginação, retroagindo ao "solar dos Dequêch" nos primórdios da urbanização.
Na "coexistência de diferentes manifestações arquitetônicas" na primeira década de Londrina, a residência dos Dequêch despontava pelo estilo colonial inglês, informa Nelson Dequêch. Quem a projetou foi o então prefeito e diretor-técnico da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP), Willie Davids, engenheiro formado na Inglaterra.
A localização, na via em que se instalaram as três primeiras casas comerciais da cidade, cada vez mais trepidante com o tráfego se avolumando nas décadas seguintes, não permitiu a manutenção. Já "o primeiro alargamento da Rua Marechal Deodoro" (este era o nome) atingiu o jardim da residência, tendo sido preciso remover o "repuxo", ou chafariz, a pequena fonte de água artificial", relata Nelson. E se a casa não fosse desmanchada, não se poderia dizer por quanto tempo permaneceria, pois o terreno está na faixa do previsto alargamento ou duplicação da Duque de Caxias, que forçosamente virá, conclui Nelson.
Na primeira planta da cidade (1932), a rua tem dois nomes a partir do cruzamento com a Avenida Paraná (atual Celso Garcia Cid): Cambé ao sul e Heimtal ao norte. A Heimtal passou a ser Rui Barbosa, a seguir Marechal Deodoro e, definitivamente, Duque de Caxias abrangendo o trecho ao norte.

Perseverança
Quem se refere ao "ecletismo" caracterizado pela diversidade arquitetônica em Londrina, logo na década de 30, é o professor Benedito Lima de Toledo, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), no prefácio de Lembranças e Deslembranças, título da reedição do Álbum de Londrina 1941. Com material do Photo Studio, de José Juliani, o álbum de 1941 se deve à Papelaria Brasil, de João Alfredo de Menezes, fundador da Associação Comercial juntamente com David Dequêch.
Em terreno contíguo ao da casa de madeira que David Dequêch mandara construir em 1931, para comércio (Casa Central) e residência da família, o "palacete" de alvenaria em 1937 simbolizou "a perseverança dos pais e o imenso amor que eles tinham pela cidade", diz Nelson Dequêch. Na crônica familiar, dona Jamile e David encomendaram a nova residência para esperar o primeiro filho, que chegou em 1938, David Dequêch Júnior. Mas, por causa de uma enfermidade, ele viveu pouco.
Quando Nelson nasceu, em 1940, a cidade ainda era "boca de sertão". Mas ele observa, bem-humorado, que não pode ser classificado de pioneiro segundo o critério dos historiadores, que restringe o título aos que chegaram a Londrina na primeira década, 1939-1949. Depois de Nelson vieram Nady (única irmã), Nilo, Norton e José Mário.
O significado do "palacete" descrito por Nelson tem correspondência em fatos históricos revelando uma fase de grande afirmação. Além de pagar impostos, a comunidade configurava um voluntariado, mantenedor até de serviços de saúde pública, ante a quase ausência do Estado.
Ainda em 1937, David Dequêch, João Alfredo de Menezes e Pedro Chocair fundam a Associação Comercial (origem da Acil). Recém-formado, o jovem advogado Milton Meneses chega em 1938 e se surpreende com o espírito comunitário: "Cidade que não tendo passado a lembrar, empenhava-se em preparar o futuro". Apesar dos surtos de febre amarela, malária, tifo e outros males. Os pais de Milton, em Minas Gerais, pedem ao filho que regresse e para convencê-lo, até conseguem que seja nomeado promotor público em Andrelândia.
Milton limitou-se a uma carta de agradecimento, pois decidira que o seu lugar era Londrina.

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