Marcílio mantém limpo o cartão-postal da cidade
Quem passa apressado pelo Lago Igapó, no centro de Londrina, muitas vezes nem percebe aquele senhor baixinho e magro que anda por lá todas as manhãs. Com botinas e calças - geralmente com as barras viradas para fora para não sujá-las -, o homem anda pelos gramados da região com um bastão na mão e dois invariáveis sacos plásticos pretos: um na cintura, outro na mão. Solitário, caminha devagar, porém firme, prestando atenção no chão, pegando qualquer papel, plástico ou outro tipo de lixo que encontra.
Quem olha para ele com mais atenção, percebe uma tranquilidade incomum, um jeito calmo de encarar a vida. E ninguém que conheça seu Marcílio Ferreira, apenas superficialmente, imagina que ele já tenha 61 anos de idade. Rosto com poucas rugas, cabelos escuros escondidos pelo boné, Marcílio aparenta bem menos idade. Seu segredo: uma aceitação da vida como ela é e o magnífico cenário do seu local de trabalho, um dos cartões postais da cidade. Trabalhar aqui é muito bom, resume.
Há cerca de dois anos e meio, Marcílio estava desempregado. Por causa da idade, não conseguia um emprego regular. Por outro lado, era muito novo para se aposentar. Para dar um jeito na situação, resolveu se inscrever na frente de trabalho aberta pela prefeitura. Foi contratado pela Autarquia Municipal do Ambiente (AMA) para trabalhar no serviço de capina e roçagem. Era um serviço duro, difícil. Minhas costas doíam. Mas pelo menos estava trabalhando, conta. Segundo ele, um dia, há cerca de dois anos, o supervisor disse que iria mudá-lo de setor. Ele disse: Você não gosta de roçar, então vai pra beira do Igapó catar paperzinho, brinca.
Com seu espetinho - um bastão de madeira com uma ponta afiada de metal -, e grandes sacos plásticos, Marcílio não reclama da mudança. No começo eu estranhei um pouco, tinha que ficar aqui sozinho sem ninguém para conversar. Além disso, andava muito. Agora eu acostumei, diz.
Hoje, garante que não troca este serviço por nenhum outro. E não é à toa. O cenário, para ele, compensa a solidão. Aqui é bonito demais, afirma. Além disso, sempre aparece um caminhante que puxa um papinho. E sobre o que falam? Ah, sobre o tempo, sobre a vida, resume.
A agilidade com que Marcílio pega papéis, plásticos e canudinhos vem da prática. Num mesmo movimento fluído, espeta o bastão no lixo e o leva ao saco que tem em mãos. Sempre no mesmo ritmo, mesmo que o lixo em questão seja um simples papel de bala. Agora, no inverno, quando menos gente frequenta o Igapó, tem menos lixo. Aí eu fico procurando o que catar. Pego até bituca de cigarro. No verão, porém, o trabalho triplica. Tem um povo que é porco mesmo. Joga de tudo por aqui. Perto da barragem e do Iate são os piores lugares. Tem dia que só ali na barragem eu tiro oito sacos de lixo, aponta.
A rotina de Marcílio é fixa. Todos os dias, acorda lá pelas 5 horas e às 7 já está trabalhando. Eu começo pela barragem e vou até o Iate, pelo lado esquerdo. Aí volto pelo mesmo caminho, só que do outro lado da rua, diz. Nenhum ponto de grama fica sem a sua inspeção. E quem controla se o trabalho foi feito ou não? Eu acho que o supervisor passa depois, conferindo se tá tudo limpo. Mas eu nunca o encontro, diz. Independente da supervisão, Marcílio garante: Não dá para fazer o serviço mal-feito. Não num lugar como este, afirma.
Trabalhando meio período, Marcílio recebe cerca R$ 260,00 - incluindo a cesta básica. Segundo ele, com este valor dá para viver folgado. E ainda sobra um pouquinho, pra aposentadoria, garante. Milagre? Não. Seu Marcílio leva uma vida simples. Solteiro, ele mora com um irmão aposentado, também solteiro, em uma casinha própria no Parque Ouro Branco. A casa é herança do pai, falecido há um ano e meio. Foi tudo que ele pode ajuntar na vida, explica.
A família, aliás, chegou à Londrina há cerca de 30 anos. Os pais e três filhos vieram de Bandeirantes (34 km a leste de Cornélio Procópio) para trabalhar em um chácara em Londrina. A irmã foi a única dos três que casou e saiu da casa. Em Londrina, Marcílio trabalhou em diversos serviços, inclusive na construção civil, e até no Iapar, transplantando mudas. É disto que gosto, lidar com terra, observa.
E uma companheira, Marcílio? Ah, já desanimei. Um desânimo, porém, que não esconde uma ponta de esperança. Às vezes ainda dá uma vontade de arrumar alguém...Quando morava no sítio, tinha muita vontade de casar. Aí mudei para a cidade e a vontade acabou passando, confessa. Ele reconhece que foi muito namorador na juventude e que estava mais preocupado com outras coisas que constituir família. Eu jogava muito futebol quando era mais novo. Ficava aí nos snookers, bebendo. Aí vi que isto não adiantava nada e parei.
Hoje, a única extravagância que faz é ir no forró dos velhos, como diz, e apenas de vez em quando. Normalmente, porém, já está dormindo às 21 horas. Na parte da tarde, livre, ele caminha pelo bairro onde mora e conversa um pouco com os vizinhos. Às 18 horas já estou em casa. Aí é jantar, ver um pouco de TV e depois dormir, explica.
Mesmo conversando, Marcílio não pára de trabalhar. E só pára de andar quando tem que afiar o espetinho no meio-fio ou no poste. Para ele, trabalhar é um prazer. Mesmo se estivesse aposentado acho que iria procurar alguma coisa para fazer, garante. Em seu local de trabalho, então, é um prazer. O único perigo aqui é a grama molhada. Isto é liso que nem sabão. Já cai e destronquei o braço assim, diz. E seu sonho, Marcílio? Quem sabe um dia achar um reloginho por aí, brinca.
PERFIL
Nome:
Marcílio Ferreira
Idade:
61 anos
Profissão:
Catador de papel
Local de trabalho:
Lago Igapó
Sonho:
Arrumar uma companheiraJosoé de CarvalhoCuidadosMarcílio Ferreira, 61 anos: satisfeito com o trabalho desenvolvido diariamente na margem do Lago IgapóTelma Elorza





