Marcha com 270 sem-terra chega amanhã à Cidade
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sábado, 04 de outubro de 1997
Osmani Costa 
Londrina
Dorico da SilvaRazões do movimentoPaulo Urquiza e Luiz de Oliveira, do MST: protesto contra despejo e prisão de trabalhadores sem-terraEles já caminharam quase 300 km desde o dia 26 de setembro, quando iniciaram em Querência do Norte (Noroeste do Estado) a Marcha pela Liberdade dos Sem-Terra, pelo Emprego e pela Reforma Agrária. Eles são 270 homens ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e a caminho de Curitiba. Hoje, os sem-terra dormem em Cambé. Amanhã, chegam a Londrina, onde participam à tarde da sessão da Câmara Municipal e são recebidos em audiência pelo prefeito Antonio Belinati (PDT).
Ontem, dois diretores do MST, Paulo Urquiza e Luiz Roberto de Oliveira, estiveram na Redação da Folha para informar objetivos e detalhes da marcha, que ao chegar em Curitiba no dia 22 terá percorrido perto de 700 km e mais de 2 mil integrantes. Oliveira explica: A marcha teve início para protestar contra a política arbitrária do Governo - que despeja e prende trabalhadores sem-terra - e para exigir a libertação dos 24 presos em todo o Paraná. Na última quarta-feira, dez deles foram colocados em liberdade provisória.
A programação da marcha em Londrina prevê para amanhã passeata pelo centro, na parte da manhã, e debate à noite no auditório maior do Centro de Letras e Ciências Humanas da UEL. Na terça-feira, os integrantes do movimento visitarão escolas e associações de moradores de bairros pela manhã. À tarde haverá outra passeata e concentração no Calçadão, em frente à agência do Banco do Brasil. Eles participarão também, nos dois dias, de várias reuniões com padres e lideranças ligadas à Comissão Pastoral da Terra da Igreja Católica.
Além de pressionar o Governo pelas nossas reivindicações concretas, o principal significado política desta marcha é o contato direto com a população das dezenas de cidades visitadas. Infelizmente, a sociedade tem uma imagem mítica, distorcida do MST e dos nossos integrantes. Este contato é importante para podermos esclarecer uma série de dúvidas e mentiras a nosso respeito, afirma Luiz de Oliveira.
Segundo ele, o resultado alcançado pela marcha tem sido altamente positivo. Está valendo a pena, o sacrifício. Em todas as cidades, passamos rapidamente do sentimento de curiosidade para o de apoio e solidariedade. Estamos sendo recebidos pelos prefeitos, vereadores, religiosos e população de forma calorosa e carinhosa, comenta o diretor do MST. Mesmo nas cidades menores, onde predomina a visão conservadora de propriedade, o apoio à causa da reforma agrária tem sido bom, acima de nossas expectativas.
De acordo com o MST, há cerca de dez mil famílias de trabalhadores sem-terra em todo o Paraná. Eles estão espalhados por quatro grandes acampamentos e 113 ocupações ou assentamentos ainda irregulares. Entre esses, 46 são áreas de conflitos em que os proprietários conseguiram mandados de reintegração de posse ainda não cumpridos. Para o assentamento de todas as famílias sem-terra seriam necessários - pelos critérios atuais do Incra - 170 mil hectares.
Terra para isso existe. O que falta é vontade política. Só o Banestado poderia entrar com 30 mil hectares, conforme promessa feita pelo presidente do banco, o fazendeiro Neco (Manoel) Garcia Cid há vários meses. Mas, até agora, nenhum palmo de terra foi liberado pelo Banestado, nem pelos governos Estadual e Federal, reclama Luiz Roberto de Oliveira. De Londrina, os 320 integrantes da marcha - 50 chegarão também amanhã da região Norte Pioneiro - seguem na quarta-feira para Ortigueira (140 km ao sul), onde outros 200 trabalhadores vão engrossar a caminhada.


