Albari RosaJosé Santos, 12 anos, tem as impressões digitais corroídas depois de sete anos colhendo laranjaDirigentes da ‘‘Marcha Mundial Contra o Trabalho Infantil’’ pediram ontem, em Curitiba, mais empenho do governador Jaime Lerner para diminuir a atuação de crianças menores de 14 anos no mercado de trabalho paranaense. Segundo os dirigentes da marcha, o Paraná é hoje o terceiro Estado onde a mão-deobra infantil é mais utilizada, perdendo apenas para o Maranhão, que lidera as estatísticas, e Alagoas.
A marcha envolve 7 mil entidades e organizações não-governamentais de 99 países de todo o mundo. Ela está dividida em três grupos que vão percorrer todos os continentes por cerca de 80 mil quilômetros - o suficiente para dar duas voltas no planeta Terra. Esses grupos devem se encontrar no dia 30 de maio em Genebra (Suíça). A marcha latino-americana partiu de São Paulo na quarta-feira e vai passar por todos os países sul-americanos, devendo se unir à marcha norte-americana em Tijuana (México).
Os participantes da marcha foram recebidos pelo governador Jaime Lerner na tarde de ontem no Palácio Iguaçu, onde entregaram um documento pedindo o repasse de mais recursos para o Programa Bolsa-Educação e a aceleração da reforma agrária, para fixar o homem no campo. Segundo o coordenador da marcha no Paraná e presidente da Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Estado do Paraná (Fetaep), Antônio Zarantonello, o programa ‘‘está parado, acanhado, e necessita de verbas’’. Segundo o coordenador sul-americano da marcha, Lélio Bentes Correia, a presença de crianças no mercado de trabalho se dá pelos baixos salários dos pais, o que obriga as crianças a abandonar a escola e procurar emprego para complementar a renda familiar. Correia observou que os estados que estão conseguindo diminuir o trabalho infantil estão apostando em propostas como a bolsa-escola. ‘‘Ao repassar dinheiro aos pais que mantêm seus filhos estudando, fica eliminada a causa do problema’’, afirma.
Governador - Ao receber os manifestantes, o governador Jaime Lerner contestou os números apresentados pelos participantes da marcha que apontam o Paraná como terceiro colocado no ranking do trabalho infantil. Lerner disse que esses números começaram a cair com a implantação de programas como a Vila Rural e Da Rua para a Escola, que juntos já atingiram 90 mil crianças, cerca de um terço do total de meninos fora da escola existentes quando ele assumiu o governo. ‘‘Hoje não estamos nem entre os cinco primeiros estados do ranking’’, disse o governador. Esses números foram confirmados por um técnico do Ministério do Trabalho presente na reunião, que afirmou que os números finais desse levantamento devem sair em março.
Identidade - O trabalho infantil faz vítimas todos os dias. Uma delas é José Santana Santos, 12 anos, que trabalha desde os 5 anos de idade na colheita de laranja no Estado de Sergipe. José tem a estrutura física de um garoto de sete anos, sente fortes dores de coluna e já não tem impressões digitais, que foram corroídas pelo ácido cítrico da casca da laranja. ‘‘Gostaria de ter tempo de estudar e passar para o segundo ano primário’’, disse.

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