Maravilha, até no nome!
Telma Elorza
De Londrina
Domingo de céu azul intenso e de baixas temperaturas. O sol forte não consegue espantar o vento frio e cortante. Mas é dia de clássico no Estádio Renato Bueno, no distrito de Maravilha, na zona leste de Londrina. Ali, o Maravilha Esporte Clube disputa com o time da Fazenda Beraldi uma boa colocação no campeonato rural. E ninguém da região, por mais friorento que seja, quer perder este jogo.
Na beira do Estádio que, na verdade, comporta apenas o campo gramado amontoa-se uma pequena multidão. Carros de todos os tipos e modelos lotam as duas vias uma ainda não asfaltada da principal rua do distrito, a Avenida Brasil, onde está localizado o campo. O povo, de pé ou sentado em assentos improvisados, acompanha atentamente cada lance do jogo. Mulheres, homens, moças e rapazes torcem, vaiam, xingam, estimulam os jogadores. E cada gol marcado é recebido como se fosse o gol final, aquele que garante o título, no último minuto da Copa do Mundo.
O futebol, em Maravilha, é coisa séria. Única diversão coletiva do distrito sem contar com as festas do Chopp, do Boi no Rolete e da padroeira Nossa Senhora de Fátima , une famílias e amigos em torno do grande Maravilha Esporte Clube. Se tem jogo aqui, todo mundo comparece. E quase todo domingo tem jogo, afirma o diretor-presidente do time Roberto Dias dos Santos, 58 anos, que mora no distrito desde 1951 e que durante a semana atua como dono de mercearia. E se o jogo é fora, pelo menos umas 150 pessoas acompanham para torcer, completa.
Falta de opções de lazer? Pode ser. Mas ninguém reclama. O consenso geral é o de que o distrito é, sem trocadilhos, realmente uma maravilha. Aqui a gente tem tudo o que precisa: tranquilidade, amigos e trabalho. Eu não troco este lugar por nenhum outro. Nasci e vou morrer aqui, garante Amauri Rezende, 36 anos, carpinteiro, casado, dois filhos. Tem sossego durante a semana e diversão no fim de semana. Viver aqui é viver no paraíso, exagera. A opinião de Rezende é compartilhada pelo amigo Gilmar Bento Professor, 41 anos, pintor, divorciado, que por incrível que pareça não mora lá. Eu moro no Conjunto das Flores (zona sul de Londrina) mas trabalho aqui, em uma fazenda. E venho todo fim de semana, conta.
Mas o que Maravilha tem de tão maravilhoso assim? Segundo Maria Aparecida Rocha, 33 anos, vendedora autônoma, auto-eleita porta-voz de um grupo de mulheres que desfrutava do sol da tarde na praça da igreja, o distrito é uma cidadezinha pequena, onde todo mundo se conhece e se ajuda. Aqui, a gente pode dormir tranquilo, pode criar nossos filhos sossegada. E se tem seus tempos ruins, logo passa. Se as crianças estão indo para um caminho errado, a gente descobre a tempo para corrigir. Um ajuda o outro, explica.
Para Maria Aparecida, as principais dificuldades do distrito são as que a maioria das cidades pequenas do Brasil enfrenta hoje: a falta do emprego e de perspectiva de vida. Aqui os jovens não tem onde trabalhar. Até nas fazendas está difícil arrumar emprego. Isso é triste porque obriga o pessoal a ir embora daqui, mesmo sem querer, lamenta. Para ela, a Prefeitura de Londrina deveria dar mais incentivos para instalação de indústrias no lugar. Se tivesse emprego, ninguém ia querer sair daqui, com certeza, afirma.
Segundo Maria Aparecida, uma reivindicação das mães de Maravilha é a instalação de uma creche pública ou até mesmo particular no distrito. Com isso, mesmo que tivéssemos que buscar empregos em Londrina, poderíamos ir sossegadas.
Até mesmo entre os jovens há um consenso de que não há lugar melhor no mundo que Maravilha para morar. Igor Dias Chaves, de 17 anos, trabalha em um laboratório fotográfico na sede do distrito e cursa a 6ª série do ensino fundamental na única escola do local. Para ele, que morou até os 15 anos em Londrina, Maravilha é muito melhor que a cidade, embora não tenha opções de diversão. Eu não ligo muito para isso. E se começar a sentir falta, Londrina é pertinho, posso ir a hora que quiser. Para Igor, sempre tem alguma coisa para fazer em Maravilha. Se não é futebol, é pescaria, uma festa ou outra coisa qualquer.
Ah, o jogo entre Maravilha Esporte Clube e Fazenda Beraldi terminou em 2 a 1. Para Maravilha. E domingo tem um jogão: nós contra Warta, avisa o presidente do time.
MARAVILHA
ONDE FICA:
zona leste, a 18 km de Londrina
População: cerca de 2.500 moradores
Dados gerais: área de 124 quilômetros quadrados; sede com 10 ruas e cerca de 120 casas; cinco bairros
Origem: loteamento da Fazenda MaravilhaFutebol, festa da padroeira e outras promoções conseguem manter moradores de distrito da zona leste de Londrina unidos
Fotos Mário CesarDIA DE FESTACarros ocupam área próxima ao campo de futebol de Maravilha nas tardes de domingo; abaixo, à esquerda e à direita, a torcida do Maravilha Esporte Clube, que joga com o time da Fazenda Beraldi; por último, um dos pontos de encontro dos moradores, na sede do distrito





