Mesmo diante da ofensiva nacional contra a máfia dos caça-níqueis e o depósito local da Polícia Civil abarrotado de máquinas de jogo, apostadores ainda têm facilidade em tentar a sorte - ou o azar - em estabelecimentos de Londrina. As máquinas caça-níqueis estão presentes em bares, padarias, lanchonetes e bancas de todas as regiões da cidade, inclusive no Centro, conforme constatou a reportagem da FOLHA.
A persistência dos aficcionados no jogo e dos mantenedores do lucrativo negócio, favorecidos pela impunidade, ajudam a explicar a sobrevivência dos caça-níqueis às frequentes apreensões - A Polícia já apreendeu mais de 500 máquinas - só este ano foram mais de 130 unidades recolhidas. Mas não é só: comerciantes ouvidos pela reportagem revelam que a prática encontra conivência no meio policial.
''Já tive que guardar as máquinas umas quatro ou cinco vezes, mas nunca sofri uma apreensão. Há policiais que ligam, em troca de propina, nos avisando sempre que tem operação'', diz Paulo (nome fictício), que tem duas máquinas caça-níqueis encostadas em um discreto canto de seu bar. Sob a garantia de não ter a identidade, nem a localização do estabelecimento divulgadas, Paulo contou outros detalhes do jogo no qual já foi viciado.
Segundo ele, existem dois tipos de jogador: o compulsivo, que joga por prazer e vício, e o ''pescador'', que o faz somente pelo dinheiro. ''O pescador aposta uma pequena quantia, ganha R$ 400,00 e se dá por satisfeito. O compulsivo não; ele quer sempre mais, gosta de ver as figuras girando, de testar o limite da máquina'', distingue.
Ex-jogador compulsivo, Paulo lembra que ''deu graças a Deus quando os bingos fecharam'' porque via neles outra tentação. Apesar de manter as máquinas caça-níqueis ''herdadas'' do antigo dono do bar, o comerciante garante que não incentiva, nem ensina ninguém a apostar. ''E só deixo jogar quem tem dinheiro. Quando eu vejo que é assalariado, faço parar. Hoje o perfil do jogador é o homem de 40, 50 anos, abastado. O mais novo que vem aqui tem 27 anos e estou tentando tirá-lo disso'', afirma.
Embora seja um ''jogo de azar'', o caça-níquel permite ao jogador ganhar com certa frequência - do contrário não seria tão atraente, ressalta Paulo. ''Nunca vi alguém sair daqui perdendo um monte. As pessoas perdem e ganham. O problema é que o compulsivo não quer recuperar só o que perdeu, ele quer ganhar mais. Mas se você parar para pensar, uma loteria como a Megasena é muito mais 'azarada' que essas máquinas.''
Para o comerciante, os caça-níqueis deveriam ser legalizados porque geram um grande número de empregos. ''(Em Londrina) é um grupo grande de trabalho, não tem malandro, não'', defende. De acordo com ele, uma empresa da cidade é distribuidora e proprietária das máquinas, que também são fornecidas para outras partes do País. Os comerciantes apenas as mantêm em seus estabelecimentos, ganhando uma porcentagem em torno de 20% dos lucros - que também são fornecidas para outras partes do País.

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