Máquina de escrever sobrevive ao tempo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de novembro de 2008
Adriana Ito<br>Equipe da Folha 
Londrina - Os avanços tecnológicos criam sonhos de consumo e os derrubam com a mesma velocidade. Quem não se lembra do "revolucionário" computador 486, das impressoras matriciais ou mesmo do fax? Porém, há os objetos que permanecem, resistindo às previsões mais pessimistas.
A máquina de escrever é um dos exemplos mais representativos. Grande, pesada, com teclas que exigem força nos dedos e nem um pouco prática na hora de corrigir os erros, ainda assim ela mantém sua utilidade dentro de vários escritórios. Quem atesta isso é Gervásio Gonzalez, 73 anos, proprietário da casa de máquinas de escrever Dom Camilo, que comercializa e conserta essas máquinas há 40 anos em Londrina.
Segundo o comerciante, deve haver na cidade umas 20 lojas ou oficinas que ainda trabalham com essas máquinas, e serviço não falta, garante ele. "É raro passar um dia em que eu não comercializo uma máquina", comenta. O público? "Gente nova, velha, de tudo um pouco."
Gonzalez revela que uma máquina pode custar entre R$ 85 e R$ 450, dependendo do modelo e ano de fabricação. Mas, ao contrário dos novos equipamentos, que vão perdendo o valor com o passar do tempo, máquinas mais antigas viram relíquia, e não sucata.
Além de não depender de energia elétrica e não haver risco de perder todas as informações devido a uma pane, a máquina de escrever, na visão de Gonzalez, ainda pode ser mais ágil que o computador. "Imagina se você tiver que ligar o computador, esperar carregar, para depois imprimir um cheque. Nesse tempo já tinha batido 20 a máquina".
Gonzalez é paraguaio. Chegou a Londrina em 1954. Ele aprendeu o ofício em sua terra natal, e, além de profissional do ramo, se diz um apaixonado pelas máquinas de escrever tradicionais. Trabalha também com máquinas elétricas e eletrônicas, calculadoras, cartão-ponto, fax e até máquina de imprimir em braile.
Aos 73 anos, este profissional "das antigas" garante que vai trabalhar "até quando der". Orgulha-se de mostrar a coleção de máquinas de um dos seus três filhos. Uma delas, inclusive, teria sido fabricada especialmente para as trincheiras da Segunda Guerra Mundial, e não faz aquele famoso barulhinho tec-tec.
O comerciante revela que muita gente o procura para vender ou mesmo doar as máquinas antigas, algumas muito bem-cuidadas, e comenta que é preciso voltar a valorizar esse equipamento. "Jogar uma máquina de escrever fora é um crime. Por quanto tempo essa máquina serviu? Quanto dinheiro não se ganhou fazendo trabalhos nela? Só porque ficou velha vai jogar fora? Está errado!", diz.


