A Universidade Paranaense (Unipar) de Umuarama vai pesquisar o trabalho infantil e repassar dados estatísticos do problema à Organização das Nações Unidas (ONU). Apesar do trabalho das organizações não-governamentais (ONGs) e programas do governo para erradicar o problema, muitas crianças e adolescentes ainda trabalham em carvoarias no Noroeste do Paraná e no Sul de Mato Grosso do Sul, um trabalho penoso e com consequências desastrosas para a saúde.
O convênio entre a universidade e a ONU foi assinado no início de outubro em Umuarama. Os pesquisadores devem sair a campo a partir do ano que vem. Cerca de 90 alunos dos cursos de especialização e mestrado em direito vão percorrer as carvoarias da região. Os resultados da pesquisa servirão para nortear programas novos ou em andamento de proteção às crianças e combate ao trabalho infantil.
Em Itaquiraí (MS), na divisa com o Paraná, a Folha encontrou uma família inteira trabalhando numa carvoaria conhecida como ‘‘Inferninho’’, onde existem 70 fornos em produção permanente. Ex-agricultor no arquipélago de Ilha Grande, no Rio Paraná, Valdevino Martins de Souza, 34 anos, mudou-se há quatro meses para a carvoaria com a mulher Maria de Fátima, 34, e os cinco filhos. ‘‘A ilha virou parque nacional e não podemos mais plantar nada lᒒ, disse Valdevino. Suzana, 14 anos, Sivaldo, 13, Simone, 9, e Valter, 7, não frequentam a escola. Todos pararam de estudar na 1ª série e passam o dia ajudando na carvoaria. O caçula Valdiney, 3 anos, fica brincando no meio do carvão. O garoto está cheio de feridas nas pernas e nos pés.
Representante da Secretaria do Trabalho do Mato Grosso do Sul numa comissão que fiscaliza condições de trabalhos nas carvoarias do Estado, Zilda Alves de Moura diz que hoje existem poucos casos de uso de mão-de-obra infantil nas carvoarias do Estado. ‘‘Checamos todas as denúncias que recebemos e visitamos periodicamente as carvoarias para conferir as condições de trabalho e a presença de crianças’’, informou. Segundo Zilda, o Mato Grosso do Sul tem 80 carvoarias legalmente registradas, mas estima-se que existam aproximadamente mais 30 clandestinas.
No Paraná, a Secretaria da Criança fez um levantamento ano passado e não encontrou crianças e adolescentes nas carvoarias do Noroeste. Segundo Oraci Aparecida Pereira, do escritório regional da Sert em Umuarama, existem poucas carvoarias atualmente na região. Os fornos de barro ou de tijolos são montados em áreas desmatadas recentemente para aproveitar a madeira que sobrou. Quando acaba a matéria-prima, os fornos são desativados.
A produção de carvão é uma atividade extremamente nociva à saúde. Os trabalhadores ficam expostos a altas temperaturas. Aspiram muita fumaça e pó de carvão que provocam doenças respiratórias e intoxicações. Ninguém usa máscaras ou qualquer outro equipamento de proteção.
Segundo levantamento feito em 99, Cianorte (87 km a nordeste de Umuarama) e Iporã (53 km a sudoeste de Umuarama) são as cidades da região que mais exploram o trabalho infantil. Em Cianorte, mais de 500 crianças e adolescentes trabalhavam nas fábricas de costura de fundo de quintal ou nas lavouras do distrito de Vidigal.
Em Iporã, também foram encontradas quase 400 crianças e adolescentes trabalhando na colheita de algodão ou nos cafezais para ajudar na renda familiar. Segundo Oraci, o governo está pagando 1.009 bolsas-escola em ambos os municípios para tirar os menores do trabalho e mandá-los para a escola. Os pais recebem uma cesta básica mensal com a condição de manter os filhos na escola.

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