Mãos que varrem com fé
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sábado, 12 de agosto de 2006
Guilherme Borges<br>Reportagem Local 
Louvando a Jesus, seu João Jovelino de Sousa, 67 anos, percorreu a Paraíba durante muitos anos. Passou pela Fernando de Noronha e, agora, é ele quem cuida da Pará. Todo dia de manhã, chega às 6h30 no trabalho, pega vassoura, carrinho, pá e se põe a caminhar, juntando aquilo que a natureza divina ou humana lhe reservou. Folhas e pequenos galhos se misturam a papéis, papéizinhos, papelões. Junta também latas, sacolas e bitucas de cigarro, que aliás, ''são as piores de limpar'', segundo ele.
Sousa é aposentado e está como gari há três anos e sete meses. Antes trabalhava na Frente de Trabalho da Prefeitura de Londrina. Por dia, percorre 11 quarteirões. ''Enquanto vou varrendo, vou cantarolando os hinos de louvor. Fico tão concentrado que nem vejo o tempo passar'', revela em ritmo pausado, tranquilo, tal qual sua expressão serena e sorriso franco. Evangélico, é casado, pai de três filho e avô de três netos.
Além do tempo, João também não vê quem passa, mas registra como máquina fotográfica o instante em que aquela pessoa, despercebida, entretida nos pensamentos ou nas conversas, joga um recado velho no chão. ''Aí, a gente fica um pouco incomodado sim, né? A gente tá ali limpando e ela não vê?'', se pergunta, tentando buscar alento à sua indignação.
Mas quem suja não vê, a própria consciência poderia dizer a seu João. Prova disso são os 1,4 mil sacos de 100 litros, transbordando de lixo, que são retirados das ruas da cidade diariamente. É bem verdade que, nesta estação do ano, aumentam as folhas, mas a diferença para a época em que elas não caem é somente de 30%.
Envergonhado, o gari confessa: ''o povo de Londrina anda um pouquinho mal-educado. Todo dia tem sempre muito lixo''. Ele também revela que se sente, em parte, dono da rua. ''Todo dia limpo aqui, né?'', resume, com uma simplicidade cativante. E, por fim, se abre e conta: ''Ah, quando eu chego em casa não quero saber de vassoura não'', exclama risonho.
Mas o que seu João não esconde é o prazer que tem pela função que desempenha. Explica que, como é aposentado, pelo menos faz algo ''útil aos outros''. O salário, ele garante, dá para pagar as contas. Segundo o coordenador do setor de limpeza pública da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), Délcio Garcia Martins, um gari ganha em média R$ 400,00 para seis horas de trabalho, R$ 70,00 por insalubridade, cesta básica e vale-transporte.
Com a sua rotina de trabalho, João só parece ficar bravo com as bitucas de cigarro e as calçados irregulares. Diz que as primeiras são muito pequenas, difíceis de juntar porque se escondem nas frestas da segunda. ''Aqui na Rua Pará não é tão difícil, mas lá na Rua Paraíba era ruim. Tinha muito lixo'', diagnostica.
Para tentar conter a sujeira, o quadrilátero central de Londrina é varrido duas vezes por dia'', garante Martins. ''São cerca de 50 garis no centro. No total são 140 espalhados pela cidade. As principais avenidas dos bairros são varridas duas ou três vezes por semana. As ruas, normalmente uma vez. O calçadão tem varredura diária permanente'', resume.
Com tanto trabalho a fazer, aos domingos único dia de folga , seu João Sousa parece não se animar de passear pela cidade. Será que não quer ver o que vai enfrentar na segunda-feira? ''As vezes dá um desânimo, né?'', sorri.


