A informação sobre uma possível desocupação na Fazenda Cachoeira, em Sapopema, chegou à Redação da Folha na noite de quinta-feira. Eu estava em casa, com a família, depois de um dia de trabalho, e o repórter-fotográfico Mário César fazia a cobertura da partida de basquete entre o Grêmio, de Londrina, e a Ulbra, do Rio Grande do Sul, válida pela Copa Sul, no Ginásio de Esportes Moringão, em Londrina.
Fomos informados pela nossa Redação sobre a operação e convocados para sair, ainda na noite de quinta-feira, em viagem rumo a Sapopema. Isso depois do assunto ter sido analisado por toda a equipe de jornalismo que ainda permanecia no Jornal, trabalhando no fechamento da edição de ontem.
Saímos de Londrina por volta das 23h30, levando lanternas, equipamentos fotográficos e agasalhos para o frio e a chuva, pois tudo indicava que enfrentaríamos uma madrugada fora do comum.
Chegamos a Sapopema por volta de 1h30 e, com um mapa desenhado por uma pessoa que conhecia a localização da fazenda, seguimos pela estrada da Vila Nova, que dá acesso à estrada rural que leva ao acampamento dos sem-terra. Foi quando tivemos que deixar a estrada cascalhada e trafegar por outra, de puro barro. Bastaram cerca de 800 metros para o carro ficar encalhado.
Decidimos prosseguir a pé, usando as lanternas para não cair nos buracos abertos pela erosão. Vimos a luz da sede da fazenda e prosseguimos, apesar de receosos, até uma casa de madeira que estava com todas as janelas abertas. Uma luz, nos fundos, estava acesa, mas não percebemos ninguém.
Aproveitamos para descansar e analisar o que faríamos. Decidimos procurar o acampamento, que pelas nossas informações, estava a 500 metros de distância. Mas não sabíamos em que rumo. Depois de andarmos em volta da casa buscando uma localização e rodearmos uma área de mata baixa, vimos luzes distantes.
Seguimos no rumo dessas luzes, quando disparamos o facho da lanterna para um determinado ponto e percebemos a presença de pessoas. ‘‘Mãos na cabeça’’, gritaram essas pessoas. Só então percebemos que eram quatro policiais encapuzados, com pistolas em punho, trajando uniformes pretos. Colocamos as mãos na cabeça e nos identificamos como jornalistas da Folha.
De nada adiantou. Os encapuzados nos revistaram. Fui algemado pela mão direita e apresentei os documentos aos policiais com a outra. Tentávamos argumentar com eles, que entre outras acusações, diziam que tínhamos atrapalhado a operação e corríamos o risco de ser atingidos, na hipótese de uma eventual troca de tiros entre os PMs e os acampados.
A mala de equipamento de Mário Cesar foi revistada, assim como os bolsos do colete de fotógrafo e a minha mochila, com agasalhos, café, bolacha, bloco de anotações e doces. Os encapuzados nos obrigaram a sentar no mato e ficar quietos, inclusive sem fazer movimentos bruscos, para não fazer barulho. Dois deles saíram do local. Os outros dois ficaram nos vigiando. Chovia. Era uma chuva fina, moscas nos incomodavam. Urticárias davam coceiras. Temos consciência dos perigos da profissão, mas os encapuzados podiam entender que só estávamos naquele lugar, àquela hora, para trabalhar.

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