Mão de obra de apenados é utilizada no serviço público
Em Londrina, alguns órgãos e secretarias contam com o trabalho de detentos; na Sercomtel Iluminação são seis pessoas
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 27 de agosto de 2019
Em Londrina, alguns órgãos e secretarias contam com o trabalho de detentos; na Sercomtel Iluminação são seis pessoas
Vitor Ogawa - Grupo Folha 

Em um dos barracões da Sercomtel Iluminação, em Londrina, há um grupo de operários
responsável por cortar cabos de energia elétrica e montar os braços de luminárias. Também ficam testando luminárias e lâmpadas avariadas que foram substituídas para verificar se pode ser reaproveitado ou irá para descarte. Com macacões azuis e equipamentos de proteção individual em dia, quem os vê não consegue distingui-los de outros servidores que trabalham na unidade em funções semelhantes. A única diferença é que eles são apenados, oriundos do convênio firmado entre a Sercomtel Iluminação e o Creslon (Centro de Reintegração Social de Londrina), vinculado ao Depen (Departamento de Execução Penal do Paraná). Assim como a Sercomtel Iluminação, que começou a contar com apenados há cerca de seis meses, outros órgãos e secretarias também utilizam mão de obra de detentos.
Esse serviço de consertar o que está quebrado pode ser uma metáfora do processo de reinserção deles na sociedade, de tentar consertar o que eles fizeram de errado em suas vidas. Os operários cumprem expediente de segunda a sexta-feira, das 7 às 17h. Ao fim do dia de trabalho eles retornam ao Creslon, onde cumprem a pena do regime semiaberto.
Três dias de trabalho proporcionam a remissão da pena em um dia. Além disso, recebem um soldo de R$ 700, que podem destinar 80% do valor para a família e 20% ficam retidos para que no fim da pena eles possam receber esse valor. Uma soma que pode ajudar a dar início à nova vida. A empresa também fornece o almoço e outra refeição no fim do dia. O transporte também é de responsabilidade da companhia. Antes do retorno ao Creslon eles também podem tomar banho.
Um dos apenados com quem a reportagem da Folha conversou foi condenado a 47 anos de prisão por furto, roubo e falsidade ideológica. “Está sendo um aprendizado bacana. (Além do trabalho) fiz cursos de poda de árvores e de primeiros socorros. Antes de ser preso eu trabalhei em construção civil e em uma oficina, mas, com esses cursos, alguma coisa a gente pode levar para fora, para usar no trabalho “, destaca "Minha família gostou muito por eu estar procurando um outro tipo de vida.”
Outro detento observa que o trabalho na Sercomtel Iluminação é bem melhor do que ficar trancado. “Preso só fica pensando em coisa boba. Aqui não, porque você fica ocupado trabalhando. O dia passa e você nem vê. Até o lugar é diferente, mais gostoso”, declara, se referindo ao ambiente bastante arborizado. “Fui condenado por assalto e tráfico. Eu errei, mas estou pagando pelo erro. Tenho uma filha pequena e quero dar um futuro para ela. Minha família me apoia nessa tarefa e torce por mim”, afirma. Ele passou a trabalhar na Sercomtel Iluminação há dois meses. O dinheiro que recebe na empresa vai para a esposa e a filha. “Esse trabalho é um bom recomeço, porque dá oportunidade para a gente. Eu ainda quero fazer um curso de eletricista para ter um entendimento maior do assunto”, destaca.
Mas com a proximidade do fim da pena, há quem fique receoso sobre seu futuro. “Eu não sei como vai ser depois que a gente sair daqui”, diz outro apenado. “Aqui a gente está trabalhando, se sairmos amanhã da cadeia não sei se vou conseguir serviço nessa área. Fui condenado a sete anos de prisão e daqui um ano eu ganho a liberdade", diz.
De acordo com o diretor de Operações da Sercomtel Iluminação, Tiago Caetano, essa parceria com o Creslon e o Depen é uma forma de ajudar na ressocialização dessas pessoas. “Essa parceria está sendo bem produtiva e bem aceita pela empresa. Não tem o que contestar o trabalho que eles executam dentro da empresa. É de ótima qualidade. Eles são tratados com isonomia em relação aos outros funcionários”, ressalta.
Ele expõe que essa é a segunda turma que a Sercomtel contrata. “O que deu para perceber é que a gente está conseguindo dar um encaminhamento digno para eles, uma profissão. Eles terão uma carreira para poder ingressar novamente nessa vida”. Caetano explica que a Sercomtel Iluminação possui convênio para admitir até 20 pessoas nessa condição. “Mas pela demanda que temos hoje estamos com seis apenados trabalhando como funcionários. Até o fim do ano queremos subir esse número para poder chamar os 20”, declara. Ao fim desse período na empresa a Sercomtel iluminação irá emitir um certificado aos apenados pelos serviços prestados à companhia.
OLHAR DIFERENTE
A coordenadora do Patronato Penitenciário de Londrina, Cinthia Helena dos Santos, ressalta que a experiência do trabalho e uma perspectiva de ganho ao sair são muito importantes. “Quando estão trabalhando, eles recebem um olhar muito diferente do que recebem na prisão”, destaca. Ela explica que esses olhares são pesados e vêm de dois extremos. “Um é o de ser um coitado e o outro é o de ser um monstro. Eles passaram muito tempo recebendo esse olhar de bandidos. De repente, quando podem, retomam um outro modo de relação e recebem outro olhar. Um olhar de ser trabalhador e a questão da responsabilidade, de se sentir útil."
O diretor do Creslon em Londrina, Reginaldo Peixoto, contabiliza 160 presos do regime semiaberto que trabalham nas diversas pastas, autarquias e empresas de Londrina. “Essa parceria (com Sercomtel Iluminação) é de importância muito grande. É uma chance que esses presos estão tendo de se reinserir na sociedade. A grande dificuldade ao voltar ao seio da sociedade é a dificuldade de se encaixar. E quando eles trabalham enquanto ainda estão cumprindo pena se sentem valorizados e saem com outra cabeça”.
Segundo o diretor, eles se dão conta de que ainda são úteis à sociedade. “O preso que participa desses programas e tem oportunidade de trabalho muda de perfil na unidade prisional e vê a possibilidade de retorno à sua família. Muitos dizem que nunca trabalharam e aprenderam a fazer algo", observa. "São pessoas que nunca tiveram profissão e acabam descobrindo que conseguem fazer algo que possibilita o sustento da família”, aponta.
Fora os convênios, ele aponta que existem empresários que fazem contratos individuais. “São pessoas que já trabalhavam para ele quando foram presos. Trabalham no regime da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). O nosso pessoal vai à empresa, faz a vistoria e a fiscalização desse trabalho”, destaca.
'SERVIÇO MUITO BOM'
A Sercomtel Iluminação não é a única a utilizar mão de obra de detentos do sistema penitenciário. O diretor logístico da FEL (Fundação de Esportes de Londrina), Nelson Correia, conta que que oito pessoas prestam serviços para a fundação, como conserto de tabelas de basquete, reparos nos banheiros e pintura de quadra. “Alguns deles já são profissionais e realizam serviços de pedreiro, encanador e eletricista. Outros aprendem na prática. Se não fosse o trabalho deles estaríamos em dificuldades maiores. O serviço deles é muito bom. Trabalham bastante e se empenham porque sabem que esse serviço diminui a pena deles."
O diretor operacional da Sema (Secretaria Municipal de Ambiente), Gerson Galdino, também possui avaliação positiva do serviço prestados pelos apenados. “Temos aproximadamente 15 pessoas que auxiliam na produção de mudas no viveiro e realizam o plantio de flores em rotatórias. Eles também fazem roçagem da grama dos parques e praças e limpeza de canais nos fundos de vale”, aponta.
A assessoria da CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização) relata o uso de 17 apenados na varrição. Segundo a assessoria, o balanço do trabalho deles é positivo e o relacionamento com os demais funcionários é tranquilo e respeitoso.
EMPRESÁRIOS
O presidente da Acil (Associação Comercial e Industrial de Londrina), Fernando Moraes, relata que recentemente a instituição realizou um evento para marcar a parceria com o Depen para fomentar o uso da mão de obra dos apenados. “Isso é de extrema importância social, pois reintegra o preso à comunidade. Temos que dar outra chance a eles e a dignidade do trabalho que podemos dar pode contribuir para isso”, destaca. Ele admite que não tem números em mãos de quantos empresários já realizaram essa parceria, mas aponta que ela é vantajosa para o empresário também em termos de custos. “Eles podem ter desoneração da folha de pagamento e, se a parceria for para utilizar a linha de produção dentro da penitenciária, o Depen cede o espaço e a energia elétrica que usam nessa produção”, aponta.


