Manter cotistas ainda é desafio para a UEL
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quinta-feira, 19 de maio de 2016
Simoni Saris<br>Reportagem Local 
Quarenta por cento das vagas ofertadas pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) são reservadas ao sistema de cotas, criado para dar acesso a negros, pardos, indígenas e egressos de escolas públicas ao ensino superior. Embora representem uma parcela significativa das vagas, as cotas ainda são vistas como um privilégio e não como um direito e essa visão tem mais reflexos na vida acadêmica dos alunos cotistas do que se pode imaginar. Um dos principais deles talvez seja a dificuldade de permanência na academia decorrente de vários fatores, entre eles, os problemas socioeconômicos.
O Programa de Apoio ao Acesso e à Permanência (Prope) da UEL promoveu ontem o 2º Encontro de Recepção dos Calouros Cotistas com o objetivo de receber e acolher os estudantes e divulgar as políticas de permanência existentes na instituição. "A nossa intenção é que os calouros cotistas não enfrentem tantas dificuldades no decorrer do curso por não saberem que há políticas específicas, como as bolsas da Fundação Araucária, a moradia estudantil, a bolsa permanência e o subsídio ampliado do Restaurante Universitário (RU)", explicou Eduardo Baroni Borghi, recém-formado em Ciências Sociais e um dos organizadores do evento.
Roberta Cristina Pereira é filha de pais camponeses que deixaram a roça para morar na cidade. Atualmente, o pai está desempregado e a mãe trabalha como faxineira e babá no interior de Minas Gerais. Roberta saiu de seu estado natal e mudou-se com uma amiga para Londrina para fazer faculdade. Trabalhou duro para custear o aluguel e o cursinho particular preparatório para o vestibular. Ingressou no curso de Geografia da UEL por meio do sistema de cotas para estudantes de escola pública e hoje, no último ano da faculdade, faz um balanço de sua vida acadêmica, marcada por restrições financeiras.
A Moradia Estudantil e o subsídio ampliado do RU, que garante refeições a R$ 0,90, ajudaram Roberta a sobreviver durante os quatro anos de faculdade, mas ainda assim o caminho não é fácil para quem já começa a vida acadêmica em desvantagem em relação aos colegas provenientes de classes mais abastadas. "O RU não funciona nos finais de semana, então a gente dá um jeito. Faz a xepa na feira e vai comer na casa dos amigos. Vou a pé fazer as compras e volto carregando as sacolas porque não tem dinheiro para o ônibus. Tenho dificuldade para acompanhar o ritmo na universidade. Divido o quarto com quatro pessoas, às vezes não tem o que comer, não tem computador para fazer os trabalhos e no meio disso tudo a gente vai se virando", contou.
No movimento estudantil Roberta encontrou pessoas que a ajudaram e que proporcionaram uma outra vivência além da sala de aula. "Passei a questionar por que não consigo ter o mesmo rendimento acadêmico de outros colegas, me perguntava como ser ouvida por outras pessoas. É muito difícil ficar aqui. Muitos desistem e vão trabalhar porque não dão conta. Eu tenho que lavar a roupa, fazer compras, tenho que sobreviver e continuar a luta porque aqui é só o começo. Tem gente que fala que não tem dinheiro porque não consegue comprar um i-Phone. Desde que entrei na UEL não comprei mais nenhuma roupa não porque mudei meu estilo de vida, mas porque não tenho dinheiro mesmo."
"Estamos vivenciando um período difícil do ponto de vista econômico e político no Estado em relação ao custeio das universidades, mas a UEL tem conseguido fazer um trabalho diferenciado em ações afirmativas, como bolsas, que são poucas ainda, e a ampliação do subsídio do RU", disse a pró-reitora de Graduação da UEL, Ângela Maria de Souza Lima.
Neste ano, a UEL aderiu ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e há a expectativa de receber recursos do Programa Nacional de Assistência Estudantil (PNAEST), que só pode ser utilizado em políticas que garantam a permanência dos estudantes nas universidades. "Também temos que trabalhar para quebrar barreiras, conscientizando servidores, técnicos, professores e alunos que ainda pensam que as cotas não são um direito", ressaltou a pró-reitora de Graduação.


