Rolândia As vítimas: crianças e adolescentes das classes média e alta, bem vestidos, que usam roupas de grife e bonés da última moda. Os acusados: jovens de 12 a 16 anos, aparentemente da periferia, com roupas e acessórios do movimento hip-hop, suspeitos de praticar pequenos assaltos em vários pontos da cidade. Os prejudicados: a própria turma do hip-hop, que alega inocência e se sente marginalizada, alvo de preconceito.
Um grupo chamado popularmente de ''Manos do Mal'' referência clara ao dialeto da periferia está aterrorizando a população juvenil de Rolândia. Como não andam armados, tudo se passa na base da ameaça. Por alguns trocados, um tênis de marca, ou um relógio de bom valor de revenda, os Manos do Mal ignoram os riscos e agem em plena luz do dia, quase sempre no centro da cidade. Quem não colabora, mesmo que não tenha nada de valor a oferecer, invariavelmente é agredido.
O problema esteve mais em evidência em julho, no período de férias escolares, mas ainda hoje pais e mães de crianças agredidas ou intimidadas estão com medo de deixar o filho sair sozinho de casa e olha que Rolândia nunca passou por situações graves de criminalidade. As vítimas, principalmente as mais novas, além de evitar sair de casa, imaginam histórias terríveis, que mais parecem enredo de cinema norte-americano, sempre com a participação de vilões trajados de boné ou gorro, camisão e calça larga.
Foi nesse contexto de insegurança e desconforto que surgiu um grupo denominado de Guardião da Paz, formado por dezenas de mães de crianças e adolescentes agredidos. ''Os casos se tornaram frequentes a partir de julho e as mães decidiram se juntar e pedir providências. Foi tudo no boca-a-boca mesmo. Uma telefonava pra outra e contava o que tinha acontecido com o seu filho'', relatou a professora Silvana, que teve seu filho de 12 anos abordado três vezes ela pediu para não ter seu sobrenome divulgado.
Na última delas, cinco manos cercaram o garoto, que saiu de casa pra comprar um CD de videogame, e o arrastaram pra trás de um caminhão. Além da desvantagem numérica, o adolescente estava com o braço esquerdo machucado e usava uma tipóia. ''Eles torceram o braço machucado, deram uma joelhada no estômago e ainda bateram no rosto dele. Tudo isso em frente a um supermercado da cidade'', esbravejou a professora. Os ladrões levaram tudo o que ele tinha: R$ 20,00. A cena permaneceu encoberta pela carroceria do caminhão.
Desde então, os pais decidiram implementar em casa algumas medidas de segurança. O garoto continua fazendo suas aulas de tênis, mas deixa a bolsa com raquete e bolinhas no clube. Tênis e roupa nova durante a semana nem pensar. ''Infelizmente, tivemos que mudar alguns hábitos. A gente fica meio neura com essa situação, porque nos sentimos dentro de um tricheira social, nós contra eles'', lamentou.
Outra professora, que exigiu o anonimato para falar sobre o caso, teve o filho de 13 anos ''escoltado'' por uma trupe de manos em pleno centro da cidade. Como não tinha dinheiro, ele perdeu o tênis, a camiseta e o boné. ''Eles ameaçaram meu filho encostando um objeto nas costas dele. Só depois descobrimos que se tratava de uma antena de carro, mas o susto foi muito grande'', contou.
A mobilização das mães ganhou repercussão e espaço na imprensa local. De acordo com as professoras, isso provocou de imediato uma redução no número de vítimas. O Conselho Municipal de Segurança e a Polícia Militar também foram informadas e se comprometeram a tentar resolver o problema. Ainda assim, elas não se sentem totalmente tranquilas. ''Reduziu, mas continua acontecedendo. Nosso maior medo é que volte tudo aquilo agora nas férias de dezembro'', disse uma das professoras.

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