Manifesto reúne vítimas de violência
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terça-feira, 30 de março de 2010
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
Diz o ditado que cada dobra de um origami é um pensamento positivo que viaja pelo universo. Também reza a lenda que a energia emanada pelo voo do tsuru, única ave pré-histórica a sobrevoar os montes mais altos da terra, garantia harmonia, paz e longevidade aos monges que viviam nessas montanhas. Vinte e seis dobras transformam um pedaço de papel num lindo tsuru, mas cada dobra deve ser realizada com uma boa intenção para que mil tsurus unidos concedam um desejo a quem produziu a peça mais famosa dos origamis.
Na manhã de ontem, crianças da creche do Hospital Universitário de Londrina aprenderam com as professoras voluntárias Shigueko Ariji e Cacilda Rossi como fazer um tsuru. A oficina de origami foi parte da programação da quarta edição do Manifesto pela Paz, realizado anualmente pelos servidores do HU, em reação à morte da auxiliar de enfermagem do hospital, Sueli Aparecida de Souza, em 2007. Ela foi atingida por uma bala perdida quando jantava com a família numa pizzaria.
Como em todo ano, a organizadora do Manifesto, a servidora administrativa do HU Maria Helena Sabatini Barbosa, convidou famílias vítimas da violência para dividir sua história com os trabalhadores do hospital. Conforme ela, a ação é voltada para sensibilizar a comunidade do HU. ''E são sempre os tsurus que carregam a mensagem do nosso manifesto.''
A professora Silvana Salino Ramos Lopes, do departamento de Letras Estrangeiras Modernas da Universidade Estadual de Londrina (UEL), falou sobre a morte do filho. Aos 20 anos, Caio Cesar Ramos Lopes foi assassinado com um tiro na cabeça em fevereiro de 2008. ''Foi algo que nos tirou o chão e desestruturou a família'', comentou Silvana, justificando que só agora conseguiu ter condições de compartilhar sua perda como forma de lutar contra a violência.
''A sociedade tem que ter consciência de que mesmo as famílias mais estruturadas, com filhos que estudam e trabalham, também podem ser vítimas'', opinou a professora, citando que o filho era estudante de Educação Física e trabalhava na empresa do pai, realizando entregas.
''O que sabemos é que ele conhecia o rapaz que o matou, mas que o jovem não estava envolvido com tráfico. Ele está preso, mas não confessou o crime'', reiterou Silvana, para quem a Justiça nunca irá desfazer o estrago deixado na família. ''Buscamos sobreviver e ajudar outras pessoas, pois a história de um fortalece o outro.''
A comerciante Maria Socorro de Souza relembrou emocionada a morte da filha Sueli. ''Só quem passa por isso entende como dói, assim devemos lutar pela paz, pela segurança. Não devemos calar a impotência que vivemos.''


