A matéria ‘Estudo condena hidrelétricas no Rio Tibagi’, publicada no Folha Reportagem de domingo passado, baseada em manifesto assinado por três professores das universidades estaduais de Londrina e Maringá, causou revolta junto aos profissionais diretamente relacionados, setores indígenas, antropólogos, arqueólogos e professores. Ao longo da semana, ocorreram reações indignadas com o teor do documento, no qual os autores dizem demonstrar ‘preocupação’ com as usinas projetadas pela Companhia Paranaense de Energia Elétrica (Copel) na Bacia do Rio Tibagi e sua influência junto aos índios.
A doutora Cecília Maria Vieira Helm, de Curitiba, autora do laudo antropológico encomendado pela Copel e que teve seu trabalho questionado no manifesto, enviou resposta por escrito à Folha, no qual afirma: ‘‘A irresponsabilidade dos pesquisadores Kimiye Tommasino (UEL), Lúcio Tadeu Mota e Francisco Silva Noelli (UEM) levou a reportagem da Folha do Paraná/Folha de Londrina a, inadvertidamente, transmitir uma falsa imagem ao leitor menos avisado sobre o trabalho antropológico sério que desenvolvo sobre os povos indígenas da Bacia do Rio Tibagi e do Paranᒒ.
Copel, professores da área e líderes de postos indígenas também se manifestaram em defesa de Cecília Helm e dos demais profissionais que participaram da elaboração dos Estudos de Impacto Ambiental (EIAs) e Relatórios de Impacto Ambiental (RIMAs) das usinas em questão - os arqueólogos Cláudia Inés Parellada, Maria Fernanda Maranhão Kluge, Oldemar Blasi.
Em sua carta, Cecília Helm ressalta: ‘‘Considero as acusações feitas através da Folha uma agressão a minha vida profissional, iniciada em 1963 na UFPR (Universidade Federal do Paraná), na qualidade de Instrutora da Cátedra de Antropologia, a convite do saudoso professor-doutor José Loureiro Fernandes’’. Ela também corrige informações contidas em um dos textos da reportagem, no qual é mencionado que atuou em Salto Caxias e Itaipu. ‘‘Nunca desenvolvi trabalho sobre a Usina Salto Caxias ou sobre Itaipu Binacional, havendo citado este último empreendimento apenas como exemplo das dificuldades vivenciadas pelos Guarani do Ocoí durante longos anos e que, devido a vontade política e sensibilidade da atual diretoria, foram reassentados em uma terra que escolheram e que a Itaipu comprou’’. Na realidade, o trabalho que desenvolveu foi em Salto Santiago.
A antropóloga contesta ainda acusações feitas pelos três pesquisadores da UEL e da UEM sobre suposta manipulação dos professores indígenas na criação, produção e ilustração do livro que escreveram sobre o Rio Tibagi. ‘‘Como antropóloga, a pesquisadora Kimiye Tommasino não deveria afirmar que os índios não têm capacidade e que houve manipulação das informações por professores do convênio UEL/Funaí/Grupo MIG ou por mim, que escrevi o laudo antropológico e assessorei os índios e prestei consultoria para a CNIA/Copel’’.
Cecília Helm informa que o laudo antropológico escrito por ela está arquivado no Núcleo do Meio Ambiente (Nema) da UEL, ‘‘e provavelmente não foi lido com atenção pelos professores acusadores, porque é um documento importante e tem recebido elogios da comunidade científica e acadêmica, que é fórum dos debates. Foi escrito com o rigor metodológico e conceitual que um documento dessa natureza exige. Foi apreciado e comentado por especialistas, como eu, do campo da Antropologia e Desenvolvimento, notadamente da UFSC (Universidade Federal de Santa catarina), UFPR (Universidade Federal do Paraná), Universidade Nacional de La Plata, Universidade de Misiones, Argentina, e de CIESAS, México. O documento - prossegue ela - está fundamentado no Capítulo ‘Dos Índios’, artigo 231 da Constituição Federal de 1988, no Estatuto do Índio e em resoluções do Conama e Ibama e no conceito de impactos globais produzidos por pesquisadores do Iparj, Rio de Janeiro’’.
Segundo Cecília Helm, afirmar que os índios estão sendo induzidos à idéia de inexorabilidade das Usinas no Tibagi ‘‘não é verdade’’. ‘‘Os relatórios produzidos sobre as usinas, sobre o Projeto da Copel e de seus parceiros ainda não foram apreciados pelo IAP, Ibama, Funai, MPF. Os povos indígenas do Tibagi não se manifestaram formalmente sobre os Projetos Hidrelétricos, ou o Senado Federal. A análise tem de ser processual e não pode ser atropelada por atitudes levianas como a que lamentavelmente ocorreu com o encaminhamento para a Folha do documento produzido pelos citados pesquisadores acusadores’’.

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