Manifestantes invadem aterro do Igapó
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de outubro de 1998
Lúcio Horta 
O Igapó é nosso!. Este slogan marcou a manifestação ocorrida ontem, na área do aterro do Igapó 2, no Jardim Maringá, área central de Londrina. O protesto, organizado por diferentes setores da comunidade londrinense, foi motivado pela lei do Executivo que prevê a doação da área do aterro, de mais de 80 mil metros quadrados, para a iniciativa privada.
Os manifestantes afirmam que a iniciativa do Executivo fere a própria legislação municipal - e também federal -, que define os fundos de vale como áreas de preservação. Por isso, defendem que a prefeitura, em vez de doar, deveria recuperar e preservar a área.
A idéia de fazer uma grande manifestação em defesa do Igapó surgiu durante a discussão de uma atividade extraclasse do curso de arquitetura da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Entre os objetivos apresentados pelos manifestantes estão o de defender a propriedade da área do aterro à própria comunidade. O grupo defende ainda que qualquer proposta para a área deverá necessariamente contemplar a integração entre os lagos Igapó 1, 2, 3 e 4, para formação de um grande parque linear, considerando os fundos de vale.
Ontem, o protesto começou por volta das 10 horas da manhã e se estendeu até o final da tarde, com a participação de estudantes e professores universitários, crianças, moradores da região e de outras partes da cidade, políticos e ambientalistas. Apesar da chuva fina, o tempo acabou colaborando e não estragou a festa dos manifestantes.
Os manifestantes promoveram diversas atividades no aterro, como oficinas de papagaio, cama elástica, futebol, ioga, massagem bioenergética, palhaços, exposições e até plantio de mudas de árvores. Também foram coletadas assinaturas condenando o projeto do Executivo e houve distribuição de manifestos e até adesivos alusivos à campanha.
Uma das primeiras pessoas que chegaram ao aterro, ainda na parte da manhã, foi a vereadora Elza Correia (sem partido), a única que votou contra o projeto do Executivo. A partir deste voto e da atuação do Ministério Público é que começaram as manifestaçãos contra a doação. O crédito é da comunidade, que percebeu que o patrimônio público poderia ser perdido, disse a vereadora.
Ontem, Elza Correia voltou a criticar a forma como o projeto de doação foi apresentado na Câmara. O projeto entrou em votação em regime de urgência, sem que pudesse ser melhor debatido pelos vereadores ou mesmo pela comunidade. Um projeto dessa natureza deveria passar antes pela discussão da comunidade. Esse é o processo democrático. Mas o que aconteceu foi um processo inverso. E completou: Esse espaço pertence a 500 mil pessoas e não posso doar ou vender uma coisa que não é minha.
Apesar do destino do aterro ainda não estar decidido, Elza Correia disse que tem confiança de que a prefeitura não vá mais prosseguir com a idéia da doação. Ela recorda que o próprio prefeito Antônio Belinati declarou, depois que a comunidade se posicionou contra o projeto, que agora só vai tomar uma decisão depois que estiver pronto o parecer do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), que está avaliando as possibilidades de recuperação da área. Sobra a resposta de que vale a pena insistir, mesmo que seja sozinha. Hoje, a briga é da comunidade.


