Bloquear ruas em Curitiba e região metropolitana virou rotina nos últimos 60 dias. Houve manifestações nos bairros Boqueirão, Uberaba, Cidade Industrial e nos municípios de Campo Magro e São José dos Pinhais. A insegurança no trânsito deflagrou os protestos. Mas, por trás das mobilizações da comunidade, entidades ligadas a associações de moradores já prestam apoio a estes movimentos. A espontaneidade com que eles acontecem está dando lugar a um ritual de organização antecipado dos protestos. A Central de Movimentos Populares é uma organização que acompanha de perto os protestos. A entidade também presta apoio para os moradores que decidem fechar ruas como forma de chamar a atenção das autoridades municipais para os problemas da comunidade. O coordenador da central, Márcio Rojânio da Ponte Sales, revela que cinco pessoas em média vão à entidade semanalmente para pedir apoio às manifestações. Quem procura a central pede desde um caminhão de som até a intermediação para marcar uma audiência na Prefeitura.
Na eventualidade de arregimentar lideranças para orientar os manifestantes, Márcio diz que a central pode prestar este tipo de serviço. ‘‘Se nós formos solicitados para participar de alguma manifestação, a gente apóia’’, diz Márcio. O coordenador entende que os protestos são as únicas alternativas que restam para os segmentos mais carentes da sociedade que exigem ser ouvidos. ‘‘É a maneira de chamar a atenção das pessoas que têm o poder de fazer alguma coisa e não fazem questão de mudar nada’’, opina.
Arquivo FolhaMesmo com todo o apoio possível, Márcio conta que a central não sugere a forma como o manifesto será feito. Os moradores é que escolherão a melhor maneira de reivindicar seus direitos junto ao poder público, acrescenta. A Central de Movimentos Populares tem ligações com cerca de 120 associações de moradores de Curitiba e Região Metropolitana. Para o coordenador da central, as manifestações de rua estão crescendo a cada ano na capital.
A socióloga Milena Martinez, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), entende que ‘‘Curitiba não está fora dos padrões de problemas das grandes cidades da América Latina’’. Milena analisa que os administradores da cidade têm um preocupação macro-industrial em detrimento dos setores sociais. ‘‘Do ponto de vista das políticas públicas, Curitiba é uma cidade totalmente fragilizada’’, afirma.
Na concepção de Milena, as manifestações de rua são respostas à ausência do poder público nas regiões carentes da capital. ‘‘A manifestação é uma questão de sobrevivência e ela sempre vai ocorrer quando as pessoas atingem o limite de suas reivindicações’’, comenta. A socióloga prevê que a tendência é de que as mobilizações sejam mais frequentes devido ao constante abandono destas áreas.
‘‘A população de Curitiba está demonstrando um certo desencanto com a cidade, principalmente quem reside na área centro-sul’’, ressalta Márcio Sales. E, segundo ele, não são apenas as classes menos abastadas que saem à rua para exigir melhor qualidade de vida da municipalidade. ‘‘Hoje não é só pobre que protesta, mas a classe média também’’, complementa. Um dos anseios da central é tentar unificar os movimentos feitos pela cidade. Márcio acha que hoje eles são fragmentados e se restringem a problemas localizados de ruas e bairros.

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