Manifestação acaba em tiroteio e morte
Vânia Moreira
De Umuarama
Um policial militar morreu e três ficaram feridos durante um confronto anteontem à noite com moradores do Jardim Alvorada, em Umuarama. Os moradores faziam um protesto contra o mau cheiro provocado pelas lagoas de tratamento de esgoto da Indústria de Alimentos Zaeli, que fica ao lado do bairro. Cerca de 400 pessoas, inclusive mulheres e crianças, destruíram as três lagoas. Os policiais foram baleados quando tentavam conter um tumulto num bar próximo da manifestação.
Quarenta policiais de Umuarama e Cruzeiro do Oeste haviam sido mobilizados para tentar conter o quebra-quebra, que começou por volta das 17 horas nas lagoas. Enfurecidos, os moradores enfrentaram o batalhão de choque, atiraram pedras nos policiais e começaram a quebrar as viaturas. A PM recuou e passou a acompanhar o tumulto a distância. Por volta das 19 horas, a PM recebeu informação de que um grupo com cerca de 100 pessoas havia se deslocado até uma lanchonete e ameaçava quebrar e por fogo no estabelecimento.
Segundo o comandante da 2ª Companhia da Polícia Militar de Umuarama, capitão Ronaldo de Oliveira, dez policiais foram atender a ocorrência. Quando se aproximavam do bar, os manifestantes abriram fogo contra a equipe. O 3º sargento Pedro Paulo de Jesus, 28 anos, recebeu um tiro de revólver calibre 38 na virilha. A artéria interfemural se rompeu e ele morreu duas horas depois de hemorragia, no Hospital Nossa Senhora Aparecida.
O soldado Valdir da Silva foi atingido com tiro de espingarda no abdômen; Alexandre Gaspar Sardi foi ferido no braço. Três disparos atingiram de raspão o soldado Gerson Jesus de Souza. Outro policial, José Roberto Resende, recebeu um tiro nas costas e não se feriu porque usava colete à prova de bala. Valdir da Silva e Alexandre Sardi estão internados no Hospital São Paulo. Silva teve o intestino perfurado, foi operado e ainda corre risco de vida. Os outros policiais foram liberados.
Durante o tiroteio os policiais revidaram com tiros para o alto e para o chão e, enquanto socorriam os feridos, os manifestantes fugiram. Ontem, a polícia prendeu oito pessoas, entre elas três menores, suspeitas de terem atirado contra os policiais.
Estão presos Clodoaldo de Oliveira Matias, Valter dos Santos, Osmar Alves dos Santos, Venildo Dias Campos, Rodrigo da Silva, e os menores W.F., F.A.C., e V.A.S. Os três com 17 anos. A maioria dos detidos já tem passagem pela polícia. Até o final da tarde de ontem, nenhuma das armas havia sido encontrada. O Grupo Águia da PM de Curitiba foi chamado para as investigações.
O delegado distrital Davi Andrade Passerino informou que vai pedir a prisão preventiva de vários outras pessoas envolvidas no tumulto, inclusive de líderes comunitários que organizaram o protesto e incitaram a população a destruir as lagoas.
Há 10 anos, cerca de três mil moradores dos bairros próximos à empresa reclamam do mau cheiro das lagoas. O problema se agravou nos últimos meses. Há 15 dias, o Instituto Ambiental do Paraná (IAP) autuou e multou a empresa em R$ 80 mil. Os moradores do Jardim Alvorada, o bairro mais próximo das lagoas, havia marcado uma reunião para as 10 horas de anteontem e exigia a presença de um dos donos da Zaeli, mas a empresa enviou apenas um representante. Outra reunião foi marcada para às 17 horas e novamente os donos da empresa não compareceram. Isso teria irritado os moradores que partiram para o quebra-quebra. Além das lagoas, os manifestantes destruíram lâmpadas e atearam fogo em terrenos baldios.
O policial Pedro Paulo de Jesus fazia parte do Grupo de Operações Especiais (GOE) do 7º Batalhão da PM. Ele era casado há cinco meses. O corpo foi velado no Centro de Convenções de Cruzeiro do Oeste (29 km a leste de Umuarama)
e sepultado às 17 horas de ontem.





