O melhor amigo do homem é o cachorro e, se nem esse amigão escapa dos maus-tratos, o que dizer de outros animais que não recebem essa deferência, mas que são tão companheiros quanto o cão e que os donos, apesar de dependerem deles para o trabalho, esquecem de retribuir a dedicação com cuidados mínimos necessários?
Boneca pode ser considerada uma privilegiada. Trabalha de segunda a sexta-feira, com direito a folgar além do final de semana, nos feriados e dias de chuva. ''Tudo o que ganho, divido com ela'', exagera o carroceiro José Porfírio Costa, 81 anos, e que há 12 anos tem como companheira de trabalho a égua Boneca. Sobre os cuidados com o animal, não titubeia: ''Minha égua só sai da cocheira para trabalhar. Trato dela com muito capim, milho e injeção quando precisa'', afirma Costa, feliz por ter criado 11 filhos com a profissão de carroceiro, que exerce há 40 anos.
Nem todos os animais são tratados com essa consideração. Alguns chegam a sofrer torturas, como a que foi flagrada por uma equipe de televisão, recentemente, em que um catador de papel espancava um cavalo. A gravidade do caso chegou à Polícia Florestal, que autuou administrativa e penalmente o agressor. ''Nós aqui recebemos poucas denúncias. Geralmente, os agressores são os donos e a molecada, que encontra os animais pastando'', explica o soldado Adão Fernandes, da Polícia Florestal.
Não é difícil de ver pelas ruas cavalos magros puxando carroças. Numa carta à Folha, a estudante Andrea da Costa se mostrou indignada com uma cena dessas: ''A mãe super magra, no puro osso, fazendo um esforço para puxar a carroça. Ao lado o filhotinho tentando mamar. E o carroceiro com pressa impedia''. Não alimentar e privar os animais de água são situações corriqueiras de maus-tratos.
''A miséria acaba com a alma da pessoa. Muitos que usam os animais enfrentam problemas familiares, perderam a noção do certo e errado e, se não cuidam dos próprios filhos, não cuidarão dos animais'', afirma a assessora da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Sema), a veterinária Anne Christina Hiltel. A Secretaria recebe denúncias, inclusive, de animais que são roubados e que teriam como destino um frigorífico da região.
Ao contrário dos carroceiros como o seo Costa, alguns catadores de papel não usam arreios, mas apenas cordas, que machucam os animais. A Sema tenta cadastrar os catadores de papel que utilizam carroça, mas o trabalho tem sido difícil. Além de arredios, falta recurso financeiro para a realização de um programa de orientação desses trabalhadores.
No ano passado, a Sema produziu um folder sobre o assunto. O material explicativo ensina como zelar dos animais, leis sobre cavalos e como acabar com carrapatos. Além disso, também estão nos planos da Secretaria fazer palestras para os catadores de papel e carroceiros sobre cuidados com os animais. Outra idéia é a instalação de cocheiras nas regiões com maior demanda, facilitando o contato de clientes que precisem destes serviços.
As pessoas que maltratam os animais precisam saber que já que existem leis enquadrando os agressores. A Lei Municipal 4.607/90 prevê que ''serão presos todos os animais que estiverem soltos ou amarrados, nos parques, praças, vias públicas ou áreas de lazer/esporte do município. O proprietário é responsável pelo bem-estar do animal, não podendo matratá-lo. Sujeito à multa de R$ 40,00 a R$ 600,00''. A Lei Federal 9.605/1998 diz que ''praticar atos de abuso, maus tratos, ferir ou mutilar animais dá pena de detenção de três meses a um ano e multa''. Denúncias podem ser feitas à Sema (fone 33419660) e Polícia Florestal (fone 33417733).

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