Hoje é dia de prova para 791 candidatos que devem prestar o exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Londrina, mas para nenhum deles o teste vai ser igual ao de Márcio Fernando Rodrigues, 29 anos. Primeiro porque Márcio é cego, e vai precisar de um computador especial para fazer o exame. Segundo, porque a deficiência fez com que graduar-se se tornasse um desafio muito maior.
A história começa com um acidente sofrido aos 4 anos de idade, que o levou a precisar de uma válvula para controlar a sua pressão cerebral. Porém, aos 16 anos, essa válvula apresentou problemas, e a deficiência visual de Márcio foi uma das sequelas. ''Cheguei a ficar seis meses de cama, porque tive os braços e pernas paralisados, e tinha convulsões. Mas depois, com fisioterapia, consegui recuperar os movimentos'', lembra. A perda da visão, porém, foi irreversível.
Mas a sua força de vontade também era irreversível, e, assim que teve condições, o jovem procurou voltar a estudar. A falta de preparo físico e profissional da escola dificultou a sua adaptação, e ele optou então por fazer supletivo. Paralelamente, frequentava aulas de braile no Instituto Londrinense de Instrução e Trabalho para Cegos. ''Em nenhum momento pensei em desistir. Eu só queria voltar a estudar.''
Determinado, Márcio prestou três vestibulares na Universidade Estadual de Londrina (UEL), mas não passou. Conseguiu ingressar em Direito na Unifil, mas não tinha condições de pagar as mensalidades de um curso particular. ''Foi quando, em uma festa de fim de ano no instituto, eu conheci uma mulher que se interessou pela história e me disse que ia pagar a faculdade para nós. Nem acreditei na hora, mas ela pagou mesmo, e o curso inteiro, do começo ao fim'', revela a mãe, Anizia Maia Rodrigues, 65 anos.
Para conseguir acompanhar o curso, o jovem teve que superar novas dificuldades. Aprendeu a ir sozinho de ônibus para a faculdade, mas precisava de ajuda para atravessar a rua. Gravava as aulas e recorria aos amigos e funcionários para fazer pesquisas na biblioteca. Vários textos foram levados para o instituto, para que algum voluntário gravasse. Outros, a sua própria mãe leu, grifou e até ajudou a fazer fichamentos (ver box). O irmão mais velho cansou de escanear páginas para que o computador ''lesse'' em voz alta, por meio de um programa específico.
Assim, a formatura, realizada no ano passado, foi resultado não só do empenho pessoal, mas também da contribuição de várias pessoas. ''Quem me deu força foi Deus e a minha família'', admite, agradecido. ''Infelizmente, meu pai faleceu ano passado e não me viu formado. Foi o ano mais difícil da minha vida'', lamenta.
Depois do exame da OAB, os planos de Márcio incluem passar em um concurso público. ''Meu sonho é passar na magistratura ou no ministério público. E para isso vou precisar continuar contando com a colaboração da minha família'', projeta, para receber o olhar anuente da mãe.

mockup