Quem são as pessoas que você torna invisíveis no cotidiano? Aquelas que, mesmo que subconscientemente, são evitadas pela cor, condição econômico-social, credo ou orientação sexual? De acordo com a professora do curso de Letras, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Gisêlda Melo Santos, a intolerância ao diferente é algo que faz parte do ser humano e se reflete na literatura brasileira. Ela e outros professores participam do seminário ''Educação e Diversidade Étnico-racial'', realizado pelo Programa Uniafro, do Núcleo de Estudos Afro-asiáticos da UEL.
O evento é voltado a professores da Educação Básica ao Ensino Médio e tem o objetivo de contribuir para a capacitação destes profissionais, facilitando a implementação da lei federal 10.639, de 2003, que institui a obrigatoriedade do ensino da História e Cultura Africana e Afro-Brasileira na Educação Básica. Ao todo, 260 pessoas se inscreveram para o seminário que começou na segunda-feira e encerra hoje, às 18 horas, no Anfiteatro Maior do Centro de Ciências Humanas (CCH).
Pontuando a literatura do Brasil, a professora Gisêlda apontou situações de preconceito automáticas e que, de alguma forma, se reproduzem no cotidiano. ''Quando eu digo: isso é do Paraguai!, ou então: que coisa de índio!, eu estou expondo meu preconceito em frases recorrentes do nosso dia-a-dia. E isso pode ser percebido nos livros também'', analisa. Ela pondera, entretanto, que nem sempre essa demonstração é perversa; às vezes é inconsciente e não-agressiva. ''Eu não gosto de música mal-feita. Seja do ponto de vista de quem escreve ou de quem ouve. Mas é uma coisa inofensiva, não quero mal de ninguém, nem vou excluir alguém por isso, mas eu não gosto'', exemplifica.
Já o professor Frederico Fernandes, que falou sobre hip hop e leitura, acrescenta que o preconceito revela a nossa incapacidade de conhecer o outro. ''Temos uma idéia de nós mesmos e, por nos aceitarmos assim, não aceitamos o outro que é diferente. Isso é a busca de uma cultura pura que não existe. Somos todos fruto de miscigenações raciais, sociais, políticas'', aponta.
Ele desenvolve trabalhos sobre o movimento hip hop que, afirma, é uma demonstração de preconceito às avessas, pois mostra a voz de quem sempre foi colocado à margem da sociedade, como numa situação de invisibilidade. ''O contato com o outro que sofre pressupõe assumirmos a dor dele, então, para sofrermos menos, o tornamos invisível. O hip hop quer quebrar essa invisibilidade'', reflete.
Gisêlda acredita que reconhecer as próprias intolerâncias é o primeiro passo. Outra dica é relativizar a intolerância; qualquer pessoa pode ser alvo de uma ação preconceituosa. ''Hoje (ontem) eu estava falando a dezenas de pessoas e era o centro das atenções, mas eu não posso me esquecer que sou mulher, negra, nordestina e canhota, ou seja, situações que já me fizeram ser marginalizada.''.

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