Londrina – Trabalhador da construção civil, Paulo Roberto de Melo, de 39 anos, já perdeu a conta de quanto tempo espera por uma casa nos programas da Companhia de Habitação de Londrina (Cohab-Ld). Levou carteira assinada, holerite e fez a inscrição há pelo menos três anos. Ele é chefe de família, tem faixa salarial dentro da atendida e três filhos. Apesar de se encaixar nos critérios, novos empreendimentos saíram, mas o raio de distância entre o lugar onde mora de aluguel e o residencial entregue sempre ultrapassava o preconizado pelo município, de 2,5 km.
Quinhentos metros a mais já eram motivo para Melo perder a chance da casa própria e nem sequer ter direito de participar dos sorteios da companhia. "Por causa do raio, nunca passamos para o sorteio. Chegamos a alugar uma casa mais barata no São Marcos, mas quando teve a seleção do Jamile Dequech (zona sul) ficamos de fora novamente", conta Melo.
O londrinense é um dos moradores que ocuparam, recentemente, uma área pertencente à própria Cohab, no Conjunto São Marcos, na zona sul da cidade. "Só precisamos do terreno, construir nós mesmos construímos", diz a catadora de recicláveis Priscila Lopes da Silva, de 25 anos. Cansada de aguardar os sorteios da companhia, ela também montou, ainda grávida, um barraco de lona e madeira no local. "Se é para dar moradia para as pessoas, o que esta exigência de raio tem a ver?", questiona.
Histórias como a dos dois são comuns não só em áreas de ocupação, mas em outros pontos da cidade. A própria Cohab alerta: a seleção dos mutuários não ocorre por fila de espera ou tempo de inscrição. Com isso, inscritos somam três, cinco ou mesmo sete anos de espera em alguns casos.


Neste ano, após discussão junto ao Conselho Municipal de Habitação, a Cohab decidiu flexibilizar o critério geográfico para a seleção em programas habitacionais. A ideia, observa o presidente do conselho José Antônio Bahls, é abranger mais famílias, sem deixar um vazio, em termos de atendimento, em meio às regiões mais próximas aos limites do perímetro urbano. "A seleção do Flores do Campo (Zona Norte) já vai ser ajustada neste novo molde, será mais includente", pontua.
Na prática, o mapa da cidade foi atualizado e divido em quatro setores (norte, sul, leste e oeste), sendo o centro diluído entre as partes leste e oeste. A Região Norte – hoje a maior da cidade – deve ser separada em duas, respeitando a distância entre os bairros para não causar impacto social. Pelo critério da territorialidade, o impasse envolvendo o raio considerava a necessidade de evitar migrações que levassem à perda de relações sociais e familiares. Agora, com a criação dos setores, desde que o candidato esteja na mesma área em que o novo conjunto habitacional, não importará distância para que ele seja incluído nos sorteios para selecionar os moradores. "Com a flexibilização, o candidato, para participar do sorteio, poderá estar no setor do empreendimento lançado e, também, fora dele, desde que esteja no raio de 2,5 km", explica a diretora técnica de projetos da Cohab, Hisae Gunji.
Hoje, a maior demanda por habitação, conforme o cadastro da Cohab, é na zona norte, com 35% do total de inscritos. A leste tem 21%, a sul, 17%, a oeste, 15%, e o centro, 12%. A demanda é referente aos inscritos com rendimentos de zero a três salários mínimos.
Além de fazer parte do setor dos novos conjuntos habitacionais – independentemente da distância em que estejam – ou da proximidade de 2,5 km com empreendimentos de outros setores, os candidatos a uma casa pela Cohab precisam atender regras de perfil locais e nacionais que ajudam a medir o grau de vulnerabilidade das famílias inscritas. A prioridade são famílias em área de risco, chefiadas por mulheres e com filhos ou idosos.

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