Mais de quatro décadas a serviço da vida
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domingo, 07 de outubro de 2007
Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
Em 1963, Londrina tinha apenas 29 anos, mas, impulsionada pelo dinheiro do café, já começava a tomar jeito de grande centro. Nessa época, a Santa Casa, fundada em 1944, principal serviço de saúde, estava sempre lotada e apresentava sérios problemas financeiros, ameaçando fechar as portas.
Nesse cenário, a Irmã Sílvia Esteves, gaúcha de Santana do Livramento, retornou a Londrina - ela já havia morado aqui quando fez o antigo ensino colegial - com um diploma de enfermeira nas mãos e muita vontade de trabalhar.
Hoje, mais de quatro décadas depois, com o hospital ampliado e considerado referência, Irmã Sílvia confessa que até pensou em desistir e pedir transferência, quando viu o desafio que tinha pela frente. Porém, ela permaneceu e, com um método particular de administração e organização, estruturou o centro cirúrgico do hospital de modo que ali fossem realizados até procedimentos da mais alta complexidade com o máximo de eficiência.
A transformação é comprovada pelos números. As duas salas cirúrgicas que a Santa Casa tinha, em 1963, aumentaram para oito. Hoje, o centro cirúrgico tem 70 funcionários e realiza 25 cirurgias por dia. Desde 1981, quando o hospital fez a sua primeira cirurgia do coração, já foram realizados mais de 6,6 mil procedimentos desse tipo. Transplantes renais já foram mais de 200; cardíacos, 35.
Desafio - Irmã Sílvia conta que não foi fácil vencer os desafios, principalmente os financeiros, quando chegou ao hospital e foi incumbida de chefiar o centro cirúrgico e gerenciar a enfermagem e o setor administrativo. Para arrumar dinheiro foi preciso arregaçar as mangas e usar a criatividade.
''Uma das primeiras coisas que fiz foi abrir um livro-ouro e sair arrecadando verbas com os empresários da cidade. Consegui o suficiente para pagar algumas dívidas e comprei o primeiro bisturi elétrico.''
Em 1968, a solução veio na forma de um bingo, realizado no estádio Vitorino Gonçalves Dias (VGD). ''O lucro foi suficiente para pagarmos as dívidas e comprarmos equipamentos. Adquirimos, por exemplo, o primeiro foco cirúrgico da cidade'', relata Irmã Sílvia. ''Sempre fui movida pela vontade de ajudar os doentes.''
Porém, a maior marca da religiosa, reconhecida por médicos e funcionários do hospital, foi implantar um excelente sistema de organização. Seguindo os princípios da administração, ela deu funcionalidade ao serviço de cirurgia.
A primeira medida foi realizar levantamento de todo o patrimônio. ''Assim, conseguimos ter um controle de todos os nossos instrumentos, evitando que alguma coisa se perca ou até que fique dentro de algum paciente'', explica.
O passo seguinte foi desenvolver fichas, descrevendo a rotina, o material e os medicamentos necessários para cada tipo de cirurgia, resultando em uma metodologia de trabalho na qual todos os funcionários sabem o que é preciso para cada procedimento, o que otimizou o trabalho.
Organização - Cadastrar o patrimônio também deu resultados interessantes. Exemplo disso é um fato ocorrido em 1974, quando Irmã Sílvia mandou três mesas auxiliares para serem cromadas, porém só duas retornaram. O encarregado do serviço alegou ter perdido a que faltava. Onze anos depois, passando por outra loja, ela reconheceu a sua mesa em meio à sucata. No hospital, pegou a ficha que comprovava o registro da mesa e levou a peça de volta à Santa Casa.
Nesta quarta-feira, a Irmã recebe da Câmara Municipal o título de cidadã honorária de Londrina, em homenagem aos anos de dedicação e serviço prestados à saúde. ''Recebo a homenagem com alegria e constrangimento. Não sei se mereço.''


