Mais de 1,8 mil enterros
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quinta-feira, 31 de maio de 2012
Micaela Orikasa <br> Reportagem Local 
Entre os jazigos do Cemitério Municipal São Pedro (Área Central), Atílio Guelfi Neto, 46 anos, se sente seguro e feliz da vida com a profissão de coveiro, que orgulhosamente exerce há 25 anos. ''Se eu tiver uma oportunidade para mudar de emprego, não mudo. Esse é o trabalho certo para mim'', defende.
E não é só pelo amor à profissão que Guelfi Neto se sente apto a trabalhar no cemitério ''até o fim''. Ele conta que para ser coveiro tem que ter qualidades como calma e ''jeito para lidar com as pessoas''. Entre os 2,5 mil enterros já realizados no cemitério, ele foi responsável por cerca de 1,8 mil. ''Contei até os 150 e depois desisti. São muitos'', explica, com a simplicidade de quem sabe da importância do trabalho. ''Minha profissão é fundamental. Imagine se não existisse o coveiro. Quem faria este trabalho?''
Mas ele sabe também que a curiosidade e o espanto são reações típicas de quem descobre sua profissão. ''Coveiro? Deus me livre'', diz ser a mais comum delas. ''Um dia contei que era coveiro dentro do ônibus e todo mundo que estava do meu lado se afastou.''
O emprego, Guelfi Neto conseguiu ao passar em um concurso público da prefeitura, mas a simpatia pelo local de trabalho vem desde menino. ''Eu atravessava um cemitério quase todos os dias, então fui perdendo o medo e o receio'', lembra. Quanto ao sofrimento das famílias, diz lidar muito bem com isso, mas revela uma técnica. ''Você não pode ficar olhando as pessoas sofrerem. Você tem que tirar o pensamento daquilo.''
Em relação à curiosidade da profissão, Atílio tem muitas histórias para contar, a começar pela familiaridade com os mortos. Ele diz que conhece todos os jazigos, mas não decorou nenhum nome ou sobrenome. ''Eu conheço cada um pela causa da morte. Quando chega alguém pedindo informação, vou logo perguntando: morreu de quê?''
Casado e pai de uma menina, ele conta que já perdeu um filho de dois anos por problemas cardíacos. ''Quando faço o enterro de alguma criança, é impossível não lembrar, mas tenho fé em Deus e acredito que ele sabe o que faz. Assim fica mais fácil lidar com a perda'', diz o coveiro, que faz piada com a própria morte, mas não deixa nunca, em 25 anos de profissão, de rezar antes de pisar no cemitério. ''É para pedir proteção, sabe?'', brinca.


