A percepção de uma escalada da violência em Londrina pode ser maior do que o avanço real. Entre os 1.140 entrevistados pelo Instituto MUlticultural na pesquisa "Violência e Morte na Juventude", sete a cada dez dizem nunca ter sofrido nenhum tipo de violência, embora oito a cada dez afirmem que a violência tem crescido no município.
Para especialistas, a exploração sensacionalista de crimes ajuda a ter a ampliar o medo, que se reflete na busca por aparatos que transmitam a sensação de segurança, como cercas elétricas e alarmes monitorados.
A pesquisa consta no relatório final da Comissão Temporária sobre Violência e Morte na Juventude, divulgado anteontem pela Câmara Municipal de Londrina (CML). Além de levantamento sobre mortes e violência focado nos jovens de 15 a 29 anos, trouxe a percepção que a população tem sobre o tema e propôs medidas para combater o problema, como projetos voltados para essa faixa etária e a criação de uma secretaria específica para controlar esses programas.
Na pesquisa do Instituto Multicultural, 69,6% dos entrevistados afirmam que nunca foram vítimas de violência. Dos 30,4% que já foram vítimas, 19,6% apontam para assaltos a mão armada, seguido por roubo a residência (4,9%), roubo seguido de morte de pessoa próxima (2,1%), agressão física (1,6%), cantada ofensiva (0,9%), estupro (0,7%) e sequestro relâmpago (0,5%).
Porém, ao fazer o recorte dos roubos, a violência mais comum, de acordo com a pesquisa, encontram-se mais vítimas na área central (27,8% moram nesta região) e menos comum nas zonas leste (17%) e sul (14,4%).
Para o psicólogo Alex Gallo, que tem doutorado no tema, as modalidades de crimes se concentram em certas áreas – se, no centro, são comuns os roubos, os homicídios ocorrem com mais frequências em bairros mais violentos e têm relação com o tráfico de drogas, em sua maioria.
Entretanto, a divulgação destas ocorrências acaba dando a impressão de que existe uma escalada de crimes, principalmente devido a programas que exploram esses casos de forma sensacionalista. "Não que seja o objetivo deles fazer isso, mas é porque dá audiência", afirma.
O professor de sociologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Ronaldo Baltar elenca, além da informação sobre casos de violência que circulam tanto na mídia quanto no boca a boca, o distanciamento da população em relação ao policiamento ostensivo. "O cidadão é desamparado. Se ocorre algo, ele não tem a quem chamar e, se chamar, não é atendido de imediato", diz. Gallo ressalta que a ausência da polícia não causa a violência, mas a presença é um fator que retrai os crimes.
Ambos explicam que essa sensação de insegurança é diferente do real aumento da violência, que precisa ser medido com dados oficiais. Entretanto, Baltar diz que as impressões da população são importantes para criar políticas que diminuam essa sensação entre a população. "Se a polícia consegue reduzir os índices e a sociedade não consegue perceber, isso precisa ser trabalhado", afirma.
A sensação de insegurança também tem a ver com o ambiente em que o entrevistado vive, na opinião dos especialistas. Quem reside num bairro menos violento pode ter a percepção de avanço quando sofre um furto a residência, enquanto moradores de bairros onde a violência está mais presente pode não perceber essa escalada.
A pesquisa do Instituto Multicultural mostra que 61,4% dos entrevistados (seis a cada dez) não consideram seus bairros violentos. Porém, enquanto 77,5% dos moradores da zona sul têm essa percepção de tranquilidade, diminui consideravelmente entre os residentes das regiões norte (55,7%) e oeste (50,8%).
Alex Gallo ressalta que a região sul é a que mais concentra investimentos públicos, enquanto a zona norte e bairros da região oeste têm histórico de abandono pelo poder público.

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