A Pastoral da Criança, maior organização não governamental (ONG) do mundo na área da saúde, nasceu em Curitiba, nos fundos da casa da médica pediátrica Zilda Arns Neumann. Catarinense radicada desde os dez anos de idade na capital paranaense, Zilda comanda hoje um exército de 82 mil voluntários, espalhados por 2.563 municípios brasileiros, que atendem a quase dois milhões de famílias e são responsáveis pela saúde de três milhões de crianças.
Ensinando noções básicas de saúde a gestantes e famílias carentes nas regiões mais pobres do Brasil, a entidade foi responsável, nos anos 80, pela maior revolução da política de saúde do País, apoiada quase que exclusivamente em líderes comunitárias recrutadas em sua maioria entre mulheres de origem humilde.
A mortalidade entre 2.774.036 crianças menores de um ano de idade atendidas no Brasil pela Pastoral da Criança caiu em 29%, entre o segundo trimestre de 95 e o mesmo período deste ano. Em 96, foi registrado índice de 22 mortes para cada mil crianças acompanhadas pela organização, contra 31,2 no ano passado. Enquanto isso, o índice médio de mortalidade infantil no País é de 50 mortes para mil nascidos vivos. A comparação é ainda mais favorável para a pastoral quando se lembra que a ONG atua exclusivamente em regiões de extrema pobreza, onde o índice de mortalidade costuma ser o dobro da média nacional.
Os números revelam o gigantismo de uma organização que cresce 20% ao ano sem perder a agilidade. Quase 70% dos R$ 3 milhões arrecadados anualmente pela ONG são repassados diretamente às comunidades, e apenas 10,8% é gasto com a estrutura administrativa. Esse dinheiro sustenta todas as ações da entidade, incluindo 1.109 grupos de alfabetização com mais de 20 mil de alunos, 1.119 projetos de geração de renda, um programa de rádio transmitido por 761 emissoras e um jornal bimestral com tiragem de 115 mil exemplares.
Desafio Tudo começou em 82, durante reunião da ONU em Genebra, na Suiça, quando o então diretor executivo do Unicef, James Grant, convenceu o cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, a engajar a igreja católica brasileira na luta contra a mortalidade infantil. Voltando ao Brasil, Arns expôs a idéia a sua irmã Zilda, que imediatamente aceitou o desafio de concretizá-la. No ano seguinte, ela estabelecia a sede da organização numa sala de fundos da casa onde morava com seus cinco filhos no Batel. A administração da ONG continua lá até hoje, ocupando a casa inteira.
A aparência frágil e os modos tranquilos de Zilda, que lembram seu irmão mais famoso, escondem uma mulher de determinação inabalável. ‘‘Ela jamais aceita um não como resposta’’, conta Agop Kayayan, representante do Unicef no Brasil, agência da ONU que sustentou financeiramente a pastoral nos seus primeiros três anos de existência. Em 72, grávida de dois meses, Zilda foi para a Colômbia, onde passou quase meio ano cursando especialização em pediatria social com bolsa da Organização Mundial de Saúde.
No começo, a proposta de combater a mortalidade num País de 40 milhões de miseráveis com medidas simples e baratas foi vista com desconfiança pelo poder público e pelos organismos oficiais de saúde. Segundo Zilda, até o início da década de 80, predominava a mentalidade de que só o governo seria capaz de promover, de forma organizada, a saúde da população. ‘‘No começo, o soro caseiro era combatido até pelo Ministério da Saúde’’, lembra ela.
O Estado, do alto de um gigantismo construído em décadas de regime militar, não acreditava que soluções caseiras e pessoas sem treinamento formal, muitas delas analfabetas, tivessem chance de sucesso no trabalho de redução da mortalidade nas regiões mais pobres do País. ‘‘Hoje o próprio governo adotou nosso modelo, com os agentes comunitários de saúde’’, comenta Zilda.

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