Dimitri do Valle
De Curitiba
Os índios do litoral do Estado vivem uma situação paradoxal. Descendentes da maior nação indígena do Brasil, a Tupi-Guarani, eles não passam hoje de uma população de cerca de 150 pessoas espalhadas em duas aldeias na região de Guaraqueçaba e uma em Paranaguá. Ao longo de cinco séculos, doenças trazidas pelo homem branco, massacres promovidos pelos colonizadores e o processo de aculturação a que foram forçados se encarregaram de dizimar os nativos e seus costumes.
Às portas do século 21, os guaranis enfrentam outra contradição que a história sacramentou: o resgate das terras que já lhes pertenciam. As aldeias Morro das Pacas, composta por 36 pessoas, e Cerco Grande, com 33 moradores, segundo a Funai, está dentro do Parque Nacional do Superagui, em Guaraqueçaba. Por causa disso, a demarcação da área exige estudos técnicos para separar o que será distribuído aos índios e o que permanecerá intocável. A floresta e os mangues guardam o último reduto de espécies da fauna brasileira ameaçadas de extinção. Outra discrepância. O conquistador que tomou a terra de quem preservava o que nela existia, é o mesmo que comprometeu a ecologia local.
Sem opções, os guaranis vagam de Estado para Estado em busca de um oásis onde possam fixar suas raízes e manter as tradições. O administrador regional da Funai, Antônio Roberto de Paula, revela que a população das aldeias nunca pode ser estimada como fixa. ‘‘É uma população flutuante. Eles estão sempre em constante movimento para buscar o resgate com a terra’’, diz o administrador. Quem fica, procura preservar o legado de pais, avós e outros ancestrais. As habitações rústicas, de palha e madeira cortada da floresta, comprovam a manutenção da cultura Tupi-Guarani no litoral. A Folha tentou acompanhar na semana que passou o cotidiano dos índios na Ilha da Cotinga, em Paranaguá, onde vivem 79 pessoas. É a maior aldeia do litoral. Segundo a Funai, os índios quiseram celebrar a sós os rituais pela passagem dos 500 anos da chegada de Cabral.
Na Ilha da Cotinga, os índios contam com atendimento médico num posto de enfermagem e ensino de 1ª a 4ª séries para as crianças. Para sobreviver, eles recebem a ajuda de programas assistenciais criados pelo homem branco. Sementes de milho e feijão são distribuídas para o plantio. A agricultura de subsistência dos nativos também se sustenta com o cultivo de mandioca. A pesca é exercida, mas em pequena escala. O orçamento é completado com a venda de produtos artesanais comercializados em Paranaguá e São Francisco do Sul (SC). O projeto Baía Limpa é outra fonte de sobrevivência. Os índios ajudam a manter a natureza em ordem para receber cestas básicas como pagamento.

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