Máfia rouba US$ 9 milhões por mês
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de julho de 1997
Valmir Denardin Ciudad del Este, Paraguai 
Ney de SouzaA máfia cobra imposto e mata quem não paga, diz Antonio ColmánUma das organizações criminosas mais violentas e temidas do mundo, a máfia chinesa fatura US$ 9 milhões por mês na fronteira mais movimentada da América do Sul - a problemática confluência entre Brasil, Paraguai e Argentina. A estimativa é da Polícia Nacional do Paraguai, país que mais sofre com a atuação do grupo.
O volume de recursos arrecadados pela máfia chinesa na fronteira representa 3,6% da previsão de faturamento mensal do comércio de Ciudad del Este em 1997 - US$ 250 milhões, segundo o Centro de Importadores e Comerciantes de Alto Paraná (Cicap), entidade que reúne os principais empresários da cidade paraguaia.
Ney de SouzaContatosAgendas telefônicas dos mafiosos (em chinês) apreendidas pela Polícia Nacional do Paraguai
Principal pólo de atração de sacoleiros do continente, Ciudad del Este recebeu 1,4 milhão de turistas em 1996, interessados em comprar produtos de todas as partes do mundo a preços mais baixos, em um gigantesco complexo de 7 mil lojas. Apesar de atravessar a pior crise de sua história, neste ano a cidade deverá registrar um movimento de aproximadamente US$ 3 bilhões.
As vultuosas cifras e a concentração de pessoas vindas de todas as partes do mundo atraíram a máfia chinesa, que instalou na fronteira uma de suas mais importantes e rentáveis ramificações. Nessa região, a organização especializou-se em extorquir comerciantes chineses de Ciudad del Este. Com cerca de 200 mil habitantes, a cidade paraguaia abriga cerca de 8 mil chineses, a maioria vivendo clandestinamente nas cidades da fronteira.
ReproduçãoLin Bingtin, chefe de grupo - nascido em Chang Chiou, tem 30 anos. Mora em Foz e trabalha no Shopping Lai Lai Center, em Ciudad del Este
A máfia chinesa é como um Estado dentro do Estado, que cobra imposto e mata quem não paga. A descrição é feita por Antonio Ibarra Colmán, chefe de Gabinete, Planejamento e Relações Públicas da Polícia Nacional em Ciudad del Este, um dos mais profundos conhecedores da forma como atua a instituição.
Durante seis anos, Colmán chefiou o Centro de Investigações Judiciais do órgão, em Assunção. Ele é um dos 24 oficiais da capital paraguaia enviados pela Polícia Nacional à fronteira com a tarefa de combater a criminalidade, principalmente a máfia chinesa.
Segundo Colmán, a organização possui na fronteira três agentes fundamentais: os espiões, os chefes e os soldados. Disfarçados de despachantes, advogados ou escrivães e instalados junto às principais aduanas dos três países - por onde entram as mercadorias importadas pelos empresários de Ciudad del Este -, os espiões têm acesso aos documentos de importação.
Por isso, ficam sabendo exatamente a quantidade de mercadorias que cada comerciante chinês traz do exterior. Com base nas informações passadas pelos espiões, os chefes telefonam para as vítimas e começam a chantageá-las e ameaçá-las, exigindo uma quantidade em dinheiro, estabelecida de acordo com o volume de mercadorias importadas. Segundo Colmán, a cota exigida nunca é menor do que US$ 5.000 e pode chegar a até US$ 40.000.
O passo seguinte do esquema é o envio de soldados até a loja da vítima. Eles são os encarregados da cobrança. Se o comerciante se recusa a pagar o valor exigido, geralmente é espancado e recebe um novo prazo para o pagamento.
Uma recusa à extorsão na segunda visita pode ser fatal. A máfia chinesa é acusada de assassinatos e sequestros. Pelo menos seis assassinatos de comerciantes chineses de Ciudad del Este registrados pela Polícia Nacional são atribuídos à organização. A Polícia Nacional já destinou 120 de seus agentes para dar proteção a chineses sob ameaça de morte na fronteira. Há comerciantes com escolta 24 horas por dia, por determinação judicial.
De acordo com organograma elaborado pela Polícia Nacional, ao qual a Folha teve acesso, cada funcionário da máfia chinesa tem função e área de atuação definida. Os chefes ficam baseados em cidades como Pedro Juan Caballero (Paraguai) e Ponta Porã (MS), separadas apenas por uma avenida. Eles raramente saem em público e nunca têm contato com as vítimas.
Os soldados, segundo o organograma, vivem em Foz do Iguaçu e diariamente cruzam a Ponte da Amizade para trabalhar disfarçados de camelôs. Enquanto estão na cidade paraguaia, são enviados pelos chefes para fazer a cobrança da extorsão.
Apesar de a maneira de agir da máfia chinesa já ser conhecida, as polícias de Ciudad del Este, Foz do Iguaçu e Puerto Iguazú (Argentina) encontram enormes barreiras para prender seus integrantes. Em Ciudad del Este há apenas 16 chineses acusados de pertencer à organização presos. Segundo Colmán, oito já foram identificados, por meio de fotos, por suas vítimas.
Mesmo assim, nenhum deles foi ainda acusado pela Justiça de pertencer à máfia. O problema é que as vítimas não os denunciam porque têm medo de morrer ou de que seus parentes sejam mortos ou sequestrados, explica Colmán. O que mantém essas pessoas na cadeia é um delito bem menor: o desrespeito às leis de imigração paraguaias.
Como o Paraguai não possui relações comerciais, civis e diplomáticas com a China, os chineses que vivem no país são considerados em situação irregular. A maioria dos integrantes da máfia chinesa usa documentos falsos.
Segundo a Polícia Nacional, dos 16 que estão presos em Ciudad del Este, 14 possuem de dois a três documentos - geralmente em chinês (o verdadeiro), espanhol e inglês. A exemplo de outros chineses acusados de integrar a organização, eles serão expulsos do país.
Esse é o mesmo procedimento adotado pela Polícia Federal brasileira. Todos os chineses supostamente pertencentes à mafia presos em Foz do Iguaçu nos últimos dois anos - aproximadamente dez pessoas - foram deportados.


