Embora o Dia das Crianças seja essencialmente comercial, a data também faz aflorar sentimentos de solidariedade e amor pelo próximo. Isso fica mais evidente quando vemos pessoas humildes dividindo o pouco que têm para alegrar crianças que nem são de suas famílias.
Separadas por poucas quadras e mal se conhecendo, duas mulheres do Jardim União da Vitória (Zona Sul de Londrina) abriram suas casas ontem, quase ao mesmo tempo, para receber a garotada dos bairros da região. Uma delas era a comerciante Marli Aragão de Menezes, 39 anos. Como faz há 12 anos, ela pediu doações a fornecedores de alimentos de seu pequeno mercado, no próprio bairro, e conseguiu preparar 180 formas de bolo.
''A gente faz porque gosta. Víamos que quando chegava o dia delas, as crianças do bairro ficavam tristinhas porque não tinham nada para comemorar. Sabemos que muitas quase nunca podem comer um bolo'', disse Marli à reportagem, sem parar de cortar os pedaços da colorida receita de pêssego e creme, sob olhares ávidos de crianças de todas as idades. Ela não soube dizer quantos ingredientes foram usados, nem qual foi o custo total da festa. ''A gente nem pára pra pensar. Vai fazendo o quanto dá.''
Em meio ao entra-e-sai da pequena residência e à multidão que se aglomerava na rua, também era impossível calcular quantas pessoas participaram do evento. Um voluntário que cuidava do portão garantiu ter visto ''mais de 1 mil entrando'' - e olha que ainda tinha bastante bolo. Muita gente já se acostumou com a festa e volta todo ano. Pudera: a pobreza também é sempre a mesma.
''Acho que faz uns quatro anos que a gente participa. Não temos condições de fazer isso em casa. Ainda bem que dona Marli é muito generosa, pensa nos filhos dos outros'', contaram Andréia e Sidnei, pais de três crianças de dois, três e seis anos de idade, mais um bebê ainda na barriga da mãe. O mais velho, Natan, disse que gosta de brincar de caminhão. Sem ganhar presente, alegrou o dia com o bolo de dona Marli.
História semelhante à de Ketlin, de 7 anos, que ganhou atividades, brinquedos e lanche por conta da generosidade de outra mulher: a doméstica Joanita Lopes da Silva, 46 anos. Pela 16 vez, ela fez festa para cerca de 500 crianças do União da Vitória 1. No dia anterior, chegou a deixar o serviço mais cedo para tratar dos últimos preparativos. ''As doações vêm de empresários. Tudo começou quando fui presidente de associação, e acompanhei as necessidades das pessoas. Hoje esses meninos são todos meus 'filhos''', comentou.
Graças a ela, um sorriso tímido despontou no rosto de Ketlin, enquanto brincava de bambolê com outras meninas. Quando falou sobre o que gostaria de ganhar de presente, entretanto, a feição se fechou. ''Uma boneca Barbie'', revelou. Sua mãe, Marta Marques, 37 anos, admitiu que nunca poderia satisfazer seu desejo. ''Imagine só, com três filhos e o pai sumido no mundo. Se eu comprasse para ela, teria que comprar para todos. Nem no aniversário ela ganhou presente, o dia passou batido'', confidenciou, sem esconder uma ponta de desgosto.
Assim como Marli, Joanita também não soube dizer quanto custou sua festa. ''Nem aceito doação em dinheiro'', garantiu. A confeiteira Rosimar Custódio, 39 anos, colaborou com o que tem de melhor: seu talento e espírito solidário. ''Se você comprar um bolo na minha padaria, vai ver que é igualzinho ao que as crianças vão comer aqui. Ficou até mais caprichado, pois minha amiga fez cobertura de brigadeiro. Para mim, isso aí não faz falta'', afirmou. No final da tarde, a criançada foi para casa sem as bonecas e carrinhos caros das propagandas, mas com um gosto um pouco mais doce na boca.

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