Há pelo menos cinco meses, a dona-de-casa Rosimeire de Souza, 26 anos, moradora de assentado localizado nos fundos do Conjunto Vivi Xavier (Zona Norte), espera ser cadastrada no Programa Leite das Crianças, do governo estadual, que fornece o alimento para famílias que tenham filhos de seis meses a três anos de idade e renda de até meio salário mínimo. Rosimeire tem três filhos, a caçula com um ano, e já teria preenchido a ficha para receber o benefício duas vezes. Segundo ela, a última promessa de que iria começar a receber o leite foi feita no final do mês passado, mas mais uma vez não foi cumprida.
''Minha filha já completou um ano e eu só consigo alimentá-la com meu leite. Mas tem hora que ela chora de fome, porque eu também não consigo me alimentar direito para ter leite suficiente. Minha irmã recebe cesta básica e tem me ajudado com pacotinhos de leite em pó, mas dura no máximo três dias'', afirma. O marido de Rosimeire está desempregado.
Situação parecida enfrenta Maísa Ferreira, de 35 anos, separada, quatro filhos, de 10 meses a 10 anos. Ela vive sozinha com os filhos e conta que vem enfrentando a mesma via-sacra de Rosimeire. ''A primeira ficha que a gente preencheu foi na creche aqui do Vivi (Creche Cantinho dos Anjos). Depois nos falaram para fazer outra na escola (Escola Estadual Adélia Dionísia Barbosa). Fizemos e até agora nada.'' Outras mães entrevistadas pela Folha no assentamento dizem estar enfrentando situação semelhante. Segundo elas, há famílias em condições financeiras melhores que estariam recebendo o benefício.
A chefe do escritório regional da Secretaria de Estado do Trabalho, Emprego e Promoção Social (SETP), Suely Beggiato, explica que o programa é gerenciado por comitês formados em seis diferentes regiões da cidade, que contam com dois representantes do poder público (estadual e municipal) e sete representantes da sociedade civil organizada, como entidades assistenciais e associações de moradores.
De acordo com Suely, na Zona Norte houve a intermediação de pessoas que se encarregaram de preencher as fichas mas não teriam encaminhado-as para o comitê gerenciador da região. ''Concluímos que eram pessoas motivadas não pelo desejo de facilitar o acesso das mães ao benefício, mas sim de se aproveitar do contato com estas famílias para fins eleitoreiros.'' Suely afirma que existem em Londrina mais de cinco mil famílias cadastradas no programa.
A presidente da Creche Cantinho dos Anjos, Onofra Camila Galeto dos Santos, diz que entregou as fichas preenchidas a uma pessoa do Comitê da Zona Leste, por recomendação da Secretaria do Trabalho. ''Não participei de nenhuma reunião, só aceitei preencher as fichas para ajudar o pessoal daqui, junto com a Pastoral da Criança. Não sabia quem fazia parte do Comitê da Zona Norte.'' Onofra diz ter entregue 105 fichas.
O representante do Estado no Comitê da Região Norte, Paulo de Albuquerque Cavalcante, que também é diretor do Colégio Professora Roseli Pioto Roehrig, responsável por centralizar os cadastros, confirma que as fichas das mães do assentamento não chegaram à escola e ele não foi procurado para regularizar a situação. ''As pessoas que vieram conversar comigo foram atendidas'', argumenta.
Para tentar resolver o problema, Cavalcante decidiu fazer um plantão na escola localizada na Rua Basílio Zani, 27, Conjunto José Giordano hoje, das 8 às 9h30, para cadastrar as famílias ainda não beneficiadas. ''As mães devem comparecer neste horário, com xerox de suas carteiras de identidade e xerox do registro de nascimento da criança.''

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