A luta de duas mães de Foz do Iguaçu ressuscitou a apuração de um caso que já havia caído no esquecimento da polícia e da justiça. A morte de dois jovens em um acidente automobilístico na BR-277, entre as cidades de Foz do Iguaçu e Santa Terezinha de Itaipu, é objeto de um dos mais longos e inusitados processos do Judiciário paranaense.
Ocorrido há quase sete, só agora, há poucas semanas, o caso chegou às mãos do juiz Sérgio Luis Patitucci, que em breve deve emitir a sentença. Julgado com base no antigo código de trânsito, substituído no início deste ano, o acusado, Sivino Bendo, pode ser condenado por duplo homicídio culposo. Para este tipo de crime, a pena prevista varia de um a três anos de detenção.
Um inquérito policial mal elaborado, com falta de provas físicas e testemunhais, provocou o arquivamento do caso, em 1993. O episódio, que aconteceu na noite de 20 de novembro de 1991, é contado em duas versões muito diferentes. As divergências incluem o sentido do trajeto do Fusca ocupado pelas vítimas Neuro César Neves da Silva (motorista) e Juciclei Clóvis Troian (carona), e quem realmente conduzia a F-1000, o outro veículo envolvido no acidente.
Ney de SouzaPromotor Acir Bueno de Camargo: versão mais plausível do acidenteAté maio de 1994, a versão considerada definitiva era de que Neuro e Juciclei teriam provocado a colisão, invadindo a pista contrária em alta velocidade, batendo de frente com a caminhonete. Na época, o trecho da rodovia entre as duas cidades não era duplicado. Por essa versão, o destino seria Santa Terezinha de Itaipu. A precariedade de dados sobre a cena do acidente e o incompleto laudo feito pelo 2º Distrito Policial contribuíram para o arquivamento do processo, no ano anterior.
Entretanto, uma longa carta da guia de turismo Teofanes Maria Troian, 53 anos, mãe de Juciclei, relatando a versão de outras testemunhas não ouvidas pela polícia, sensibilizou o promotor público Acir Bueno de Camargo, da 3ª Vara Criminal de Foz do Iguaçu, responsável pela acusação. Imediatamente, o promotor reabriu o processo.
‘‘O mesmo promotor arquivar e desarquivar um processo é um fato raríssimo. Em mais de 200 processos apreciados no ano passado, isto não aconteceu nenhuma vez’’, diz. Quatro anos depois, Camargo fez, em julho, a alegação final da ação penal. O promotor acredita que reuniu provas suficientes para condenar Bendo. ‘‘Esta segunda versão é muito mais plausível que a primeira’’, acredita.
Junto com a luta de Teofanes, para a punição dos culpados, está a comerciante Vanderli, 51 anos, que é mãe de Neuro César e também ajudou na busca das testemunhas. ‘‘Não importa que se passou muito tempo. Nós queremos justiça’’, afirma Vanderli.
Para elas e as testemunhas, o laudo policial foi feito sem os devidos cuidados, o que incentivou uma investigação paralela. ‘‘Nem solicitaram as fotografias tiradas pelo Instituto Médico-Legal (IML) para anexar ao inquérito’’, informa Teofanes. As mães também estranharam o fato de a Polícia Rodoviária Federal só comunicar o acidente às famílias dez horas depois. ‘‘É um desrespeito’’, revolta-se Teofanes.
Até agora, as testemunhas-chave do processo são o casal Osmar Frances e Zenilda Longen Frances, que trafegavam na rodovia próximo ao ponto do acidente. Segundo eles, o sentido do Fusca que levava os rapazes era Santa Terezinha de Itaipu-Foz do Iguaçu e, na colisão, o que restou do automóvel ficou no sentido invertido, facilitando a versão contada pelos ocupantes da caminhonete.
Pelo relato dos Frances, a caminhonete invadiu a pista onde o Fusca trafegava, saindo de uma estrada rural. A caminhonete estava carregada de areia e com as luzes apagadas. Segundo as mães, o casal chegou a dizer que os ocupantes da F-1000 estavam embriagados. ‘‘Depois destas acusações, recebi dois telefonemas anônimos. A voz dizia que eu ainda vou me arrepender de ter mexido neste caso’’, conta Teofanes.

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