Mãe vence batalhas contra o tráfico de drogas
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 05 de abril de 2001
Walter Ogama 
Ela acaba de vencer uma importante batalha da guerra que trava sozinha, há anos, contra o tráfico de drogas. Mulher de fibra e londrinense de muitas lutas, semanas atrás ela caminhava cabisbaixa, como se estivesse transportando nas costas a carga de todas as desgraças do mundo. E andava trôpega, enroscando as pontas dos chinelos de dedo nas imperfeições das calçadas que percorria de segunda à sexta-feira, religiosamente, para levar um dos filhos até a escola de educação especial.
Nesse percurso, que começava na zona oeste de Londrina, em um bairro muito carente quase favela e terminava em outro extremo do ponto cardeal, na zona sul, pouco ela falava. Da saída da precária casa de madeira velha até a parada de ônibus, trecho que incluía ruas de chão batido e calçadas maltratadas de cimento, os vizinhos que a viam comentavam: Ela não é mais a mesma. Está carregando uma enorme cruz! No ônibus, nem o tradicional Boa tarde! o cobrador merecia. O menino que ia para a escola, puxado pelas mãos, vencia as dificuldades de caminhar causadas pela deficiência da qual era vítima, quase correndo atrás da mãe.
Mas, persistente, ela acabara de derrotar, pela segunda vez, os traficantes de seu bairro. A primeira vitória foi quando conseguiu convencer seu filho mais velho, que o esquema do tráfico havia transformado inicialmente em dependente das drogas e, pouco depois, em traficante, a procurar ajuda numa entidade de recuperação e reinserção social. E foram com palavras que só uma mãe, mulher de luta, sabe proferir, que ela conseguiu derrubar os insistentes argumentos dos traficantes ao seu filho, para que ele continuasse no tráfico.
A segunda vitória, a que tirou quase todo o peso das costas dela, aconteceu há uma semana. Sabendo que o adolescente seria liberado no fim de semana pela entidade, para uma visita à família e até para que fosse testada a sua recuperação, os traficantes haviam feito chegar a ele um recado: preparariam um churrasco para recepcioná-lo. Mas ela, apesar de tensa e preocupada, recorreu a vizinhos e preparou para o filho uma comida de domingo, que foi servida na velha mesa de fórmica da casa pobre e sem conforto, localizada não muito longe do local onde os inimigos preparavam o churrasco.
O filho preferiu o almoço preparado pela mãe. E ela, já na segunda-feira, depois do adolescente ter retornado para a entidade, passou a caminhar confiante nas imperfeições das calçadas de Londrina.


