Mãe transforma revolta e sofrimento em esperança e força para lutar
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 06 de maio de 1999
Osmani Costa 
Depois daquela sexta-feira, a pacata vida da família Moretto - que reside em um bairro da zona leste de Londrina - nunca mais seria a mesma. Eram quase 21 horas do dia 12 de julho de 96. Cristian Cesar Moreto, 19 anos, estudava na sala da sua casa para uma prova que teria no curso de auxiliar de enfermagem que fazia na Santa Casa. De repente, assim como às vezes acontecem os fatos mais importantes da vida de uma pessoa, ele resolveu passear para relaxar um pouco. Como a sua motocicleta estava com defeito, pegou carona com o amigo Rogério. Foram juntos para uma lanchonete.
Por volta das 23 horas, o telefone dos Moretto tocou. Cristian acabara de ser baleado, dentro da lanchonete, por Rubens Mendes Queiróz, segundo as investigações da polícia. De lá para cá, minha vida mudou completamente, apesar das aparências e da rotineira normalidade. Eu nunca mais consegui dormir uma noite inteira, porque tenho insônia. Insônia e medo desta peste social apelidada de violência urbana, afirma a mãe de Cristian, Nadir Medeiros Pereira.
Segundo os amigos de Cristian contaram para ela e à polícia, Rubens Queiróz atirou à queima-roupa, pelas costas, porque seu filho cumprimentou a ex-mulher de Queiróz, Luciana. Dois anos depois, Luciana também foi morta a tiros de revólver. O acusado foi novamente Rubens Queiróz, que se encontra foragido e com prisão preventiva decretada.
Paulo WolfgangTodas as mães têm a mesma força que eu. Acho que é da natureza materna estar acima das dores, se superar nos momentos difíceis. Amar e sofrer demais, porque tudo vale a pena quando é pelos filhosO ferimento à bala causou em Cristian infecções internas generalizadas. Ele foi submetido a duas cirurgias, esteve internado duas vezes, e não se recuperou com o tratamento médico recebido no Hospital Universitário (HU), coincidentemente onde Nadir Medeiros trabalha desde 1981 como funcionária técnico-administrativa. Ele não resistiu e faleceu no dia 17 de abril de 97. Foram 9 meses e cinco dias de agonia, sofrimento e esperança. Sobraram a dor, a angústia, e esta sensação de impotência, ressalta a mãe.
Com o filho sepultado, começava a fase mais difícil da vida de Nadir Medeiros: a luta para que o acusado do homicídio seja levado a julgamento. Enquanto o Cristian estava na cama, em casa ou no hospital, eu não tinha cabeça para mais nada, a não ser para a tentativa de salvá-lo. Só pensava na sobrevivência dele. Nunca havia pensado na possibilidade de sepultar um filho meu. Acho que nenhuma mãe nasceu para isto; nenhuma merece passar por esta dor.
Na semana seguinte ao sepultamento de Cristian, Nadir Medeiros foi pela primeira vez ao 2º Distrito Policial (DP) para saber como estavam as investigações sobre o assassinato do filho. Minha revolta, tristeza e dor pela perda do Cristian passaram a ser os combustíveis da minha força, na luta por Justiça. Às vezes, pensei que não fosse suportar, mas Deus nunca me abandonou, explica ela.
De acordo com a funcionária do HU - cujo filho caçula, Luiz Severino, hoje tem 18 anos -, ela ficou indignada ao saber do então delegado do 2º DP, Antonio Zuba de Oliva, que o inquérito para apurar as circunstâncias da agressão a Cristian não havia ainda sequer sido aberto. Fiquei muito aborrecida e magoada com este descaso da polícia. Foi aí que procurei a Folha para pedir ajuda e denunciar a impunidade, que infelizmente impera no Brasil.
A busca por Justiça não parou mais e ainda não chegou ao fim. Fui diversas vezes ao 2º DP, ao IML e ao Fórum. Já falei com delegados, promotores, juízes. Escrevi para secretários estaduais e para o ministro da Justiça. Fiz protesto no Calçadão e dependurei faixas pela cidade inteira. Corri atrás do inquérito, atrás do processo e agora peço pelo julgamento. Não vou desistir nunca. Só paro quando aquele monstro for julgado, condenado e punido. Sei que isto não trará meu filho de volta e nem diminuirá o meu sofrimento. Mas é um direito constitucional que eu tenho e vou lutar por ele até o fim. Pela memória do Cristian e para que outras mães não tenham que sofrer o que sofri, explica Nadir Medeiros.
Nem nos meses que Cristian esteve acamado, em casa ou no HU, ela parou de estudar. Não podia fraquejar naquele momento, porque sei que meu filho não me perdoaria. Ele foi comigo fazer a inscrição e saber o resultado do vestibular. Depois, me levava e buscava na faculdade; e passou a conviver com um grupo de colegas da minha turma. Por isto, resolvi continuar estudando e me formei no final do ano em que ele faleceu. Este diploma foi uma homenagem minha para ele. Sei que o Cristian, que era um estudante dedicado, ficou feliz comigo por isto.
Ela aproveita para agradecer o apoio que tem recebido nestes anos todos do marido Luiz Cesar Moretto, do filho caçula, da família, dos amigos e da Igreja Católica. Só Deus e Nossa Senhora, que também foi mãe, para me darem tanta força. Sei que ela é extraordinária, mas não é incomum. Todas as mães têm a mesma força que eu. Acho que é da natureza materna estar acima das dores, se superar nos momentos difíceis. Amar e sofrer demais, porque tudo vale a pena quando é pelos filhos, diz ela, lembrando que sonha com Cristian e sente o cheiro dele constantemente. Sei que ele está bem, em um lugar muito melhor que aqui. E tenho a certeza de que iremos nos encontrar novamente.
PERFIL
Nome: Nadir Medeiros Pereira
Idade: 39 anos
Onde nasceu: Santo Antônio da Platina (PR)
Profissão: Pedagoga, funcionária da UEL
Onde trabalha: Hospital Universitário
Sonho: Que haja justiça no Brasil


