Mãe reencontra filhos 42 anos depois
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quarta-feira, 16 de julho de 1997
Josiane Schulz Londrina 
Milton DóriaEm casaNair César, mãe de sete filhos, descobriu ontem que é bisavó: Tinha medo de não ser bem recebida Quando saiu de Londrina, no dia 14 de junho de 1955, Nair César ainda não sabia muito bem o que estava fazendo ou para onde iria. De uma hora para outra foi embora e tomou um rumo: Aparecida do Norte, cidade sagrada para os devotos da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. Fui sem pensar, disse.
Para trás, ela deixou o casamento e cinco filhos: Benigno, Luzia, Laércio, Enzo e Rosa. Todos com idade entre 12 e 3 anos. Nair saiu de madrugada e não avisou ninguém. Não tinha como ficar. Eu e meu marido não nos dávamos bem, justificou-se. A última lembrança que um dos filhos, Enzo, tinha da mãe era o olhar de dúvida. Não sabia por que ela estava indo. Mas senti nela a vontade de me levar, disse. Enzo tinha cinco anos.
Nair foi para a casa de uma tia, Josefina César. No dia seguinte começou traçar seu novo destino. Um ano depois de chegar a Aparecida do Norte, onde trabalhava em um hotel, casou e teve dois filhos: Benedito e Bernadete. Mais oito anos e mudou-se para São Paulo. Os filhos do primeiro casamento contiuaram em Londrina e viviam às vezes com o pai e a madrasta, às vezes com as avós. Dois filhos - Benedito e Laércio - morreram.
A saudade e a vontade de rever foram muito maiores. E a determinação da família de Nair César resultou no reencontro, ontem, 42 anos depois. Sempre tivemos vontade de encontrá-la, mas não tínhamos uma pista de onde poderia estar, contou Enzo Viotto. Os filhos, amigos e parentes de Nair sempre buscavam por informações, mas sem sucesso. Conversamos com pessoas de diversos Estados, na esperança de saber alguma coisa, disse Enzo.
As estratégias não estavam dando certo. Enzo passou, então, a procurar informações em órgãos públicos, principalmente cartórios. E foi justamente em um Cartório Eleitoral de São Paulo que a família teve, na segunda-feira, a primeira boa notícia: uma das funcionárias conhecia Nair. A nossa sorte é que ela não mudou de nome.
O endereço em que Enzo e um primo foram bater era da cunhada de Bernadete, filha de Nair. Os dados coincidiam, mas restava a dúvida: seria ela mesmo? Enzo ligou na casa da mãe, conversou com ela, sem se identificar. Quando ela disse que nasceu em Santa Cruz do Rio Pardo, não tive mais dúvidas.
Com receio da mãe fugir, Enzo chegou até a casa de Nair como se fosse um pastor evangélico. No momento que a vi tive certeza ainda maior. A minha irmã mais nova é a cara dela. Quando, finalmente, falou quem era, ele ouviu a resposta emocionada: Fazia muitos anos que eu esperava por esse momento.
Nair César chegou em Londrina, com a filha do segundo casamento. De madrugada, como no dia em que foi embora. Na rodoviária, cerca de 50 pessoas, entre amigos e parentes, esperaram a chegada. Nunca senti uma emoção assim. Parece um sonho, disse Mealchiades César, irmão de Nair.
Entre abraços, beijos e muita choradeira, a tentativa de recuperar os anos perdidos: Nair contou a angústia que viveu, a saudade dos filhos e a vontade de voltar. Mas tinha medo de não ser bem recebida. Se soubesse que ia ser assim, teria voltado muito antes.
O filho mais velho, Benigno, 54 anos, não acreditou. Meu cérebro deu um nó. Não tinha mais esperança de vê-la, contou, emocionado. Passaram mais de 40 anos e eu ganhei uma mãe, uma irmã e diversos sobrinhos. É muito bom. A tia de Nair, Josefina, 90 anos, que foi a última pessoa a vê-la em 1955, não escondia a alegria. É uma vida nova. Não quero saber mais do passado.
Entre tantas novidades, Nair, agora com 73 anos, nem acreditou que é bisavó. Tenho cinco bisnetos. Estou vivendo o melhor momento da minha vida. Estou em paz. Hoje, a festa continua no jardim Amaral (zona leste): está marcado um jantar com toda a família reunida. Falta ainda muito para matarmos a saudade e habituar-nos à nossa nova família, disse Enzo.


